Ex-cunhada implica Jair Bolsonaro em esquema de “rachadinhas”

Fernando Frazão / ABr

Jair Bolsonaro

Áudio reforça indícios de esquema de desvio de dinheiro público operado pela família Bolsonaro. Em gravação, ex-cunhada afirma que irmão foi demitido pelo atual presidente porque não repassava seu salário para o clã.

Um áudio de uma ex-cunhada de Jair Bolsonaro divulgado nesta segunda-feira (05/07) envolve diretamente o Presidente no esquema ilegal de desvio de parte do salário de assessores parlamentares, conhecido como “rachadinha” e considerado crime de peculato, pelo qual seu filho Flávio já foi denunciado e seu filho Carlos é investigado.

Andrea Siqueira Valle, irmã da segunda esposa do presidente, afirma no áudio que Bolsonaro, que foi deputado federal de 1991 a 2018, determinou a exoneração do irmão caçula dela, André Valle, assessor no seu gabinete na Câmara dos Deputados de 2006 a 2007, porque ele não devolvia o valor do salário como combinado.

“O André dava muito problema, porque o André nunca devolveu o dinheiro certo que tinha que ser devolvido, entendeu? Tinha que devolver R$ 6 mil, o André devolvia R$ 2 mil, R$ 3 mil. Foi um tempão assim até que o Jair pegou e falou: ‘Chega. Pode tirar ele, porque ele nunca me devolve o dinheiro certo'”, diz Andrea na gravação, revelada pelo portal UOL.

Envolvimento de coronel

No áudio, Andrea também afirma que, quando estava lotada no gabinete de Flávio, parte de seu salário era recolhida por seu tio, o coronel da reserva do Exército Guilherme dos Santos Hudson, colega de Bolsonaro na Academia Militar das Agulhas Negras nos anos 1970, que foi assessor de Flávio de junho a agosto de 2018 e é investigado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro. Andrea diz que ficava com cerca de R$ 1 mil e repassava R$ 7 mil para o esquema.

Segundo o UOL, Andrea foi funcionária fantasma da família Bolsonaro por 20 anos, divididos entre os gabinetes de Jair na Câmara Federal, de Carlos na Câmara Municipal do Rio e da Flávio na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Ela também é investigada pelo Ministério Público fluminense.

Seu irmão, André, foi assessor de Carlos de agosto de 2001 a fevereiro de 2005 e de fevereiro a novembro de 2006. Em novembro de 2006, ele foi nomeado assessor do gabinete de Bolsonaro na Câmara dos Deputados, onde ficou até outubro de 2007 e ganhava cerca de R$ 6 mil.

Menção a Queiroz

Em outra gravação divulgada pelo UOL, Márcia Aguiar, esposa de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio e um dos operadores do esquema, que chegou a ser preso em junho de 2020, afirma que Jair Bolsonaro seria o “01” e “não vai deixar” seu marido voltar a atuar como antes, devido às investigações no Ministério Público do Rio de Janeiro e à publicação de reportagens detalhando suas atividades.

Entre outros pontos, a investigação do Ministério Público identificou que Queiroz, amigo de Bolsonaro desde a década de 1980, depositou um cheque de R$ 24 mil na conta de Michelle Bolsonaro. A filha de Queiroz, Nathalia Melo de Queiroz, também foi funcionária do gabinete de Bolsonaro na Câmara de dezembro de 2016 a outubro de 2018.

A prática de “rachadinha” é tratada pelas autoridades como crime de peculato, que é a subtração ou apropriação indevida de valores ou bens por um servidor público, como um parlamentar.

O que há de novo

Diversas investigações do Ministério Público e reportagens já haviam apontado detalhes do suposto esquema de “rachadinha” e de como Bolsonaro e seus filhos Flávio, Carlos e Eduardo nomearam dezenas de pessoas com vínculos de parentesco entre si por meio de um rodízio entre seus gabinetes na Câmara dos Deputados, na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e na Câmara Municipal do Rio.

Quebras de sigilos bancários apontaram que era comum entre assessores da família Bolsonaro a prática de sacar em dinheiro vivo praticamente todo o salário, para supostamente devolver a maior parte do valor por meio de operadores. Flávio responde a uma ação penal sobre o tema, e Carlos é investigado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro.

A novidade é um áudio afirmando diretamente que o Presidente tinha conhecimento e comandava o suposto esquema da “rachadinha”, revelado em um momento que Bolsonaro vê seu nome vinculado a suspeitas de corrução ligadas à pandemia de covid-19 e enfrenta uma sequência de protestos contra seu governo.

A CPI da Pandemia no Senado está investigando acusações de corrupção envolvendo a compra e a negociação de vacinas pelo governo, e forças opositoras realizaram desde o final de maio três protestos de rua que contaram com milhares de pessoas em todas as regiões do país – o último, neste sábado, teve as suspeitas de corrupção como um dos temas centrais.

Como o áudio refere-se a um fato ocorrido antes de Bolsonaro ter tomado posse como Presidente, ele não pode ser eventualmente condenado pelo caso até o fim de seu mandato. Há uma discussão jurídica sobre se um Presidente poderia ser investigado por fatos anteriores ao mandato, o que já ocorreu uma vez, em 2017, com Michel Temer.

Parlamentares vinculam Bolsonaro a corrupção

A divulgação do áudio provocou impacto no meio político e foi comentada por diversos parlamentares, que destacaram o envolvimento do Presidente e usaram o escândalo para fortalecer o pedido por seu impeachment.

No Twitter, o deputado federal Kim Kataguiri (DEM-SP) disse que a gravação mostra que Jair Bolsonaro era “o grande chefe de desvios”, e João Amoêdo, que foi candidato a presidente em 2018 pelo Novo, escreveu: “Rachadinha é crime. A reconstrução do Brasil começa com o impeachment do Presidente da República.”

O deputado federal Marcelo Freixo (PSB-RJ) usou o episódio para comparar a família Bolsonaro a uma máfia. “Tudo o que acontece na família Bolsonaro passa por Jair. Quem manda é o patriarca. É assim que as máfias funcionam“.

Gleisi Hoffmann, presidente nacional do PT e deputada federal pelo Paraná, afirmou que “Jair, o verdadeiro 01, foi entregue pela ex-cunhada” e destacou: “Pegar salário de funcionário é peculato, é crime, corrupção na veia”.

O senador Renan Calheiros (MDB-AL), relator da CPI da Pandemia, disse ao UOL que solicitará a convocação de Andrea para que ela esclareça se sabe algo sobre a atividade de militares no governo Bolsonaro e sobre o suposto “ministério paralelo” que atuaria na gestão federal.

Frederick Wassef, advogado de Bolsonaro e em cuja casa em Atibaia Queiroz estava escondido quando foi preso, afirmou que os fatos descritos por Andrea são “inverídicos” e que “jamais existiu qualquer esquema de rachadinha no gabinete do deputado Jair Bolsonaro ou de qualquer de seus filhos”.

Maguns Cardoso, advogado de Ana Cristina Valle e sua família, disse ao UOL em nota que seus clientes não irão se manifestar.

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