Índia: nascimentos de meninas aumenta apesar de aborto de fetos femininos

aarongilson / Flickr

A Índia é o país com a proporção de gênero mais desigual do mundo, ao lado da China. Muito menos meninas do que meninos nasceram nos últimos anos, devido à violenta prática generalizada de abortar fetos femininos. No entanto, o governo indiano anuncia que essa tendência melhorou nos últimos seis anos.

Na Índia, nasceram 934 meninas para cada 1.000 meninos em 2020, contra 911 há seis anos: um aumento de quase 2%. Uma melhora significativa, de acordo com os números de um relatório do governo publicado nesta sexta-feira (29).

O documento diz que esse progresso foi feito graças a um programa específico destinado à proteção e educação de meninas, lançado em 2015 na metade norte da Índia. Nesta região de costumes muito patriarcais, as famílias preferem abortar fetos femininos para não ter que criar uma filha e pagar o dote quando ela se casa.

Uma situação contrastante segundo os estados

Para lutar contra esses preconceitos misóginos, as autoridades indianas realizaram primeiro uma campanha de comunicação e, em seguida, estabeleceram um controle mais rígido nas clínicas que realizam ultrassonografia de gestantes, para que os médicos não revelem o gênero do feto às famílias.

A estratégia parece funcionar, porque na maioria dos distritos onde este programa existe, tem havido mais nascimentos de meninas. No entanto, a batalha está longe de ser ganha, já que estados inteiros – muitas vezes não incluídos este programa – continuam a ver a queda da proporção de gênero.

Himachal Pradesh, por exemplo, um estado montanhoso no norte da Índia, viu a proporção de gênero cair 62 pontos em 5 anos: no ano passado, nasceram apenas 875 meninas em cada 1.000 meninos. O mesmo fenômeno foi observado em Maharashtra, o estado onde está localizada Mumbai, que viu a situação piorar.

O progresso anunciado é frágil, especialmente porque, como dizem os assistentes sociais, as famílias no norte da Índia não mudaram suas mentalidades – elas continuam fazendo de tudo para ter um menino em vez de uma menina.

Além disso, essa prática também está se desenvolvendo no restante do país.

Regressões com a pandemia

A pandemia também tornou a vida das meninas mais difícil. A maioria das escolas ainda está fechada na Índia devido ao temor da Covid-19. As aulas são ministradas on-line, o que é precário, pois a maioria das famílias só tem um computador ou smartphone, geralmente para o uso exclusivo do filho e não da filha.

Isso tem consequências, explica a Dra. Ranjana Kumari, ativista feminista à frente do Centro de Pesquisa Social em Nova Délhi: “Muitas meninas não tinham acesso à tecnologia para frequentar as aulas, e então abandonaram a escola, sendo posteriormente casadas ​​por seus pais. Este ano vimos um aumento nos casamentos de menores”.

A pandemia desviou a atenção das autoridades para esses problemas – os assistentes sociais estão, portanto, exigindo que o governo integre uma dimensão de gênero na luta contra a Covid, para não adicionar problemas sociais a esta crise de saúde.

// RFI

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