Poeira espacial impulsionou a vida na Terra e poderia ajudar na crise climática

Don Davis / Southwest Research Institute

Muitos são os fatores que ajudaram a Terra a desenvolver todo o seu complexo conjunto de condições que permitiram o surgimento da vida, e os cientistas ainda estão aprendendo sobre eles.

Uma nova pesquisa aponta que uma poeira espacial criada 468 milhões de anos atrás é um desses fatores. Mais especificamente, o fator para que a vida já existente fosse capaz de evoluir e criar diversidade.

Naquela época, uma colisão cataclísmica de asteroides ocorreu além da órbita de Marte, e isso pode ter ajudado a desencadear uma era glacial com uma explosão de biodiversidade de vida na Terra. Embora ideias semelhantes já tenham sido rebatidas anteriormente por outros cientistas, um novo estudo publicado na última quarta-feira (18) na Science Advances, por uma equipe liderada por Birger Schmitz, traz novas evidências.

Os autores do estudo demonstram como a poeira de asteroide pode causar o resfriamento do clima global, e sugerem que esse tipo de material espacial pode até mesmo ser uma possível solução para reverter a mudança climática causada pelo homem.

Há cerca de 466 milhões de anos, a Terra passava pelo período de biodiversidade ordoviciano (do inglês Event Biodiversification Grande Ordoviciano, ou GOBE). Foi uma época de resfriamento global, quando o número de famílias de invertebrados marinhos triplicou, e animais complexos como braquiópodes, gastrópodes e bivalves dominaram os oceanos. Mas a causa desse evento ainda é motivo de debate na comunidade científica.

A resposta poderia estar na vizinhança de outro planeta. O violento impacto de um asteroide de 160 quilômetros de largura relativamente perto de Marte polvilhou a atmosfera da Terra com detritos. Esse asteroide é conhecido como “L chondrite parent body” (LCPB), porque acredita-se que todos os pequenos asteroides classificados como “L chondrite”, o tipo mais comum que vemos hoje em direção à Terra, são fragmentos desse corpo gigantesco que colidiu milhões de anos atrás. Quase um terço dos meteoritos que caem até hoje na Terra são do tipo L chondrite, de acordo com o estudo.

Essa colisão cósmica pode ter filtrado a luz solar, causando um resfriamento global e a queda do nível do mar à medida que o gelo se formava nos polos. Essa mudança pode ter estimulado a adaptação dos seres vivos na época, criando possibilidades e iniciando o GOBE. Segundo Schmitz, esse fenômeno pode até ser responsável por outras eras glaciais ao longo da história da Terra.

Cientistas já contestaram antes a ideia de que a nuvem de poeira do asteroide e o GOBE estejam relacionados. Um estudo de 2017 da Nature Communications sugeriu que o aumento da biodiversidade já estava em andamento quando a primeira poeira chegou à Terra. Schmitz e seus colegas, no entanto, começaram a procurar registros calcários dessa chuva de detritos para estabelecer uma linha do tempo muito mais precisa.

Os resultados da pesquisa mostraram que os detritos de L chondrite após o impacto causaram um aumento de mil vezes da poeira espacial caindo na Terra, com duração de pelo menos dois milhões de anos. A equipe também forneceu evidências de que “quantidades extraordinárias de micrometeoritos L chondrite” chegaram centenas de milhares de anos antes do que o estudo de 2017 sugeriu. A conclusão o time é que queda prolongada de detritos da colisão coincide com a explosão da diversidade da vida encontrada no registro fóssil. Ou seja, a poeira do asteroide poderia, sim, ter sido um dos principais impulsionadores da biodiversidade.

Além de esfriar o clima, essa poeira pode ter jogado nos oceanos componentes extraterrestres importantes para o repentino aumento da biodiversidade. “Este tipo de poeira extraterrestre é muito rico em ferro”, disse Schmitz. “Quando a poeira passa pela atmosfera, ela diminui por causa do atrito, e partículas minúsculas ricas em ferro, na escala nanométrica, são liberadas e depositadas na superfície do oceano.”

Segundo Schmitz, essa descoberta pode ajudar, de alguma forma, a combater a crise climática com a geoengenharia. “Seria extremamente importante descobrir se a redução do [dióxido de carbono] por causa da fertilização do ferro e do aumento da biodiversidade ou da sombra criada pela poeira, é o parâmetro mais importante que levou ao resfriamento”, disse. “Esse conhecimento pode ser crucial se precisarmos mitigar um aquecimento global catastrófico pela geoengenharia (isso se os políticos falharem em reduzir as emissões [de dióxido de carbono])”.

A equipe encerrou o estudo citando um cenário especulativo de geoengenharia. Um asteroide seria “atracado” gravitacionalmente a um milhão de quilômetros do nosso planeta, na direção do Sol. A Terra seria salpicada com poeira dessa rocha espacial, o que poderia “criar um efeito de resfriamento prolongado”, disseram os autores do estudo.

Claro, tudo isso não passa de especulação, e qualquer medida nesse sentido exigiria muita pesquisa adicional, debates técnicos e novas tecnologias.

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