Prepare-se para cada vez mais ondas de calor

Marcelo Camargo / Agência Brasil

Nas últimas décadas, as ondas de calor causaram muito mais mortes na Europa do que qualquer outro evento climático extremo. E a comunidade científica aponta que sejam cada vez mais comuns verões mais quentes que o habitual. 

A Europa enfrenta uma onda de calor, e ela não está se dissipando – pelo contrário. Uma massa de ar quente está vindo da África, trazendo poeira do deserto, afetando em particular os países do sudoeste europeu.

Em Portugal, no sábado, a temperatura foi a mais alta registrada na história em 26 estações. Em Lisboa, foram 44 graus. Em Alvega, no distrito de Santarém, os termômetros chegaram a marcar 46,8 graus. Alertas também foram emitidos para 40 das 50 províncias da Espanha.

Se os habitantes da Península Ibérica sentem que não conseguem mais pensar claramente nesse tipo de calor, eles não estão errados. Segundo mostrou um estudo realizado pela Escola de Saúde Pública de Harvard, publicado em julho na revista PLOS, o clima quente pode tornar seu pensamento 13% mais lento.

Mas esse não é o único problema relacionado ao calor extremo. Temperaturas elevadas aumentam o nível de poluentes no ar, pois aceleram a taxa de reações químicas. Isso eleva o risco de doenças cardiovasculares e respiratórias. Além disso, altas temperaturas incomuns durante a noite perturbam o sono reparador, impedindo que o corpo se recupere do calor diurno.

“Ondas de calor causaram muito mais mortes do que qualquer outro evento climático extremo nas últimas décadas na Europa”, diz Vladimir Kendrovski, diretor técnico de saúde e mudança climática do Escritório Regional da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a Europa.

Grupos vulneráveis, como crianças pequenas e idosos, sofrem mais. Muitas vítimas de calor extremo vivem em áreas urbanas densamente povoadas, onde é escassa a ventilação. Segundo cientistas, as atuais ondas de calor estão ligadas à mudança climática.

No Japão, por exemplo, ao menos 119 pessoas morreram de estresse por calor em julho, outras 49 mil foram hospitalizadas. O país está vivenciando um pico de temperaturas sem precedentes neste verão.

A cidade de Kumagaya estabeleceu um novo recorde nacional de calor, atingindo 41,1°C no final de julho. Em Tóquio, pela primeira vez na história, as temperaturas passaram dos 40°C.

Um novo estudo aponta também que a China deverá enfrentar problemas significativos com o calor extremo num futuro não muito distante.

Pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) mostraram que, a menos que medidas drásticas sejam tomadas para limitar as emissões de gases estufa, a região mais populosa e agrícola chinesa poderá vivenciar, repetidamente, condições climáticas nas quais humanos não podem sobreviver desprotegidos por longos períodos.

A questão não é somente a alta temperatura, mas o calor associado à umidade elevada. O clima quente junto à umidade também é um cenário perfeito para a proliferação de insetos.

Isso é particularmente preocupante para países vulneráveis a doenças como a malária ou a dengue – doenças disseminadas por agentes vetores, ou seja, transmitidas pela picada de espécies como mosquitos, carrapatos ou pernilongos. “As doenças transmitidas por vetores estão associadas às mudanças climáticas, devido à sua ocorrência generalizada e à sensibilidade dos agentes vetores a seus habitats“, diz Kendrovski.

Mosquitos como o Aedes aegypti, que pode transmitir a dengue e a febre amarela, estão se espalhando para novas regiões, devido, ao menos em parte, às crescentes temperaturas.

O que as pessoas podem fazer para sobreviver ao calor? Não se exponha ao Sol, use roupas leves e soltas, e beba água suficiente. Náuseas e dores de cabeça são reações comuns ao calor, mas alterações no comportamento, vômitos, respiração e batimento cardíaco acelerado podem ser sinais de insolação.

Nesse caso, uma ambulância deve ser chamada imediatamente. A insolação não tratada pode danificar rapidamente o cérebro, o coração, os rins e os músculos. Quanto mais tardar o tratamento, maior o risco de complicações sérias ou morte.

No futuro, o número de mortes em ondas de calor provavelmente aumentará, se as pessoas não conseguirem se adaptar ao aumento das temperaturas. Pesquisadores da Universidade Monash, na Austrália, desenvolveram um modelo para estimar o número de mortes relacionadas a ondas de calor em 20 países, para o período entre 2031 e 2080.

O estudo, publicado recentemente na revista online PLOS Medicine, constatou que o aumento da mortalidade provavelmente seria maior perto do equador.

A Colômbia, o país mais afetado, poderá enfrentar 2 mil por cento a mais de mortes prematuras por calor extremo durante o período de 2031 a 2080, em comparação com 1971 a 2010. Filipinas e Brasil também deverão sofrer os maiores aumentos de mortes prematuras devido ao calor, segundo o estudo australiano.

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