Ursos polares estão (mesmo) morrendo de fome

As imagens extremamente tristes de ursos polares em pele e osso não são casos isolados, muito menos jogadas de marketing. Segundo um novo estudo norte-americano, devido ao derretimento do gelo, é provável que mais ursos polares morram de fome em breve.

Um estudo publicado na sexta-feira na revista Science revela que os ursos polares precisam comer 60% mais do que se pensava. A pesquisa contou com a colaboração de membros do Serviço Geológico dos Estados Unidos, da Universidade da Califórnia e da ONG de conservação San Diego Zoo Global.

Como predadores de alta energia, os ursos queimam cerca de 12 mil calorias por dia. No entanto, com a diminuição do gelo, estão tendo muitas dificuldades em encontrar comida – neste caso, focas.

É possível que você tenha visto o último vídeo de um urso polar faminto lutando pela sobrevivência, do grupo sem fins lucrativos Sea Legacy, publicado no início de dezembro. De há uns tempos para cá, as imagens têm aberto o debate sobre os impactos da mudança climática para esses animais.

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Os ursos polares dependem quase exclusivamente de uma dieta carregada de calorias de focas. Para minimizar o consumo de energia, os ursos caçam sentados e aguardam durante horas a passagem de uma foca, até que ela se aproxime da superfície para respirar.

Quando encontram uma, os ursos se apoiam nas patas traseiras e atingem o animal na cabeça com as duas patas dianteiras, atordoando-o, para em seguida morder o pescoço e arrastá-lo para o gelo.

Este é o método mais bem-sucedido de caça, e é também uma das razões pela qual o derretimento do gelo ameaça a sua sobrevivência.

O estudo envolveu a captura de nove ursas, todas fêmeas, no Mar de Beaufort, no Alasca, em abril passado, quando geralmente há bastante foca para alimentação. Os ursos foram equipados com colares de GPS que continham câmeras. Amostras de sangue e urina também foram recolhidas. Cerca de 11 dias depois, as ursas foram recapturadas.

Uma delas tinha andado 250 quilômetros. Os dados mostraram que os animais ficaram ativos durante cerca de 35% do tempo e descansaram o restante, mas queimaram em média 12.325 calorias por dia. Isso significa cerca de 60% a mais do que estudos anteriores tinham estimado, e essas calorias vieram em grande parte das reservas que as ursas tinham no corpo.

Os vídeos revelaram que quatro das fêmeas não conseguiram apanhar uma única foca. As medidas mostraram que os animais perderam 10% ou mais da sua massa corporal. Uma ursa perdeu cerca de 20 quilos, incluindo músculo magro, em 10 dias. Esta mesma ursa saltou ao mar em uma tentativa fracassada de pegar uma foca nadando, no que deve ter sido um ato desesperado.

O novo estudo mostra que os ursos polares são mais parecidos com os grandes felinos, como leões e tigres, do que pensávamos. Ou seja, são carnívoros predatórios com metabolismos de alta energia.

Como caçadores solitários, os ursos são mais como tigres, só que com o dobro do tamanho. No entanto, são vulneráveis na dependência quase total de uma única espécie de presa.

Os resultados indicam que a perda de gelo marinho pode ter um impacto maior nos ursos do que acreditávamos.

A mudança climática aquece o Ártico mais rápido do que qualquer outro lugar. O gelo marinho diminui 14% por década. Hoje, há quase 2 milhões de quilômetros quadrados a menos de gelo do que a média de 1981 a 2010.

O gelo se fragmenta mais cedo no final da primavera e se forma mais tarde no outono, forçando os ursos a queimar grandes quantidades de energia ao caminhar ou nadar longas distâncias, ou a ficar mais tempo em terra, em jejum, vivendo da gordura das focas que tinham conseguido capturar anteriormente.

Em 2010, uma pesquisa realizada por Steven Amstrup, cientista-chefe da Polar Bears International, uma organização centrada na conservação desses animais, previu que o declínio continuado do gelo marinho reduziria a população mundial de ursos em dois terços, para menos de 10 mil até 2050.

As melhores estimativas dizem que há entre 20 mil a 30 mil ursos polares em 19 grupos diferentes ou populações espalhadas pelos EUA, Canadá, Groenlândia, Noruega e Rússia.

Quatro dessas populações estão em declínio, e cinco dessas populações são consideradas estáveis. Não há informações suficientes sobre as restantes. Os ursos na região do Mar de Beaufort estão entre os melhores estudados e os números caíram 40% nos últimos dez anos.

O que aprendemos com a nova pesquisa é que ursos não são feitos para caminhar. Graças à dieta energética de focas, podem percorrer áreas grandes, mas perdem peso rapidamente. Isso não seria um problema se os animais conseguissem recuperar o peso rapidamente também – machos de 500 quilos podem consumir 100 quilos de foca em uma única refeição.

Contudo, quanto mais os ursos têm que viajar para chegar ao gelo e caçar, mais peso perdem. Eventualmente, começam a perder músculo, prejudicando as probabilidades de sucesso na caça – ou seja, um ciclo terrível que só piora.

Os ursos também estão nadando muito mais devido à diminuição do gelo. Embora sejam capazes de nadar longas distâncias, queimam muita mais energia fazendo isso do que caminhando. A necessidade de mais natação poderia levar a ursos menores, taxas de reprodução reduzidas e até aumento do risco de morte – algo já visto no oeste da baía de Hudson e no Mar de Beaufort.

Não há dúvida de que, à medida que o gelo marinho diminui, mais e mais ursos morrerão de fome. “Eu não sei se aquele pobre urso naquele vídeo estava morrendo de fome. Eu sei que a única solução para a sobrevivência a longo prazo do urso polar é lidar com a mudança climática”, afirma Amstrup.

Ciberia // HypeScience / ZAP

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