Viagem de Lula à Argentina visa fortalecer governo de Fernández e teoria de lawfare contra Kirchner

Ricardo Stuckert / Instituto Lula

O ex-presidente Lula será o primeiro estrangeiro a discursar diante de uma multidão na Praça de Maio, em Buenos Aires, em um ato destinado a renovar o vínculo do governo argentino com o seu eleitorado. A visita ao país hermano deverá marcar uma clara diferenciação com o presidente Jair Bolsonaro, no que seria um pontapé para a pré-campanha eleitoral de Lula à Presidência. A proximidade de Lula com o governo argentino volta a afastar o presidente Jair Bolsonaro de Alberto Fernández.

Quando Lula discursar em português no começo da noite desta sexta-feira (10) na Praça de Maio, será o primeiro estrangeiro a falar a uma multidão no emblemático palco popular dos argentinos. A cena ilustra o protagonismo que Lula terá como convidado especial para o chamado “Festival Cidadão” com o qual o governo argentino procura renovar o seu vínculo com o eleitorado, depois da dura derrota nas eleições legislativas de 14 de novembro, quando o Peronismo sofreu o seu maior revés na história.

A visita de Lula também acontece quando a vice-presidente Cristina Kirchner enfrenta momentos cruciais nos processos em que é acusada de corrupção. A história recente de Lula é uma peça fundamental para reforçar a teoria defendida por Kirchner de ser vítima de uma perseguição política e judiciária.

“Lula tem muitos atrativos para ser uma figura fundamental e sustentar a tese do ‘lawfare’, mas também para validar uma coalizão de governo na Argentina que acaba de perder as eleições legislativas”, explica o politólogo e diretor da consultoria Synopsis, Lucas Romero.

“Lawfare” é o termo usado para definir uma guerra judiciária com o objetivo de intervir na política e destruir adversários.

“Lula tem um valor simbólico muito especial para a realidade política argentina. Em torno de Lula, construíram-se as lideranças de centro-esquerda na região. O valor da sua figura é superlativo em relação aos demais líderes”, observa Romero.

O cientista político Sergio Berensztein, uma referência na Argentina, acrescenta à RFI que, para o kirchnerismo, ala mais radical de esquerda do Peronismo e predominante da coalizão de governo, Lula é o “Mandela latino-americano”.

“Lula é uma referência na Argentina e tem um capital simbólico, para além da questão do ‘lawfare’. A esquerda latino-americana não tem muitas figuras para exibir. Vários perderam relevância. Restam Lula e José Mujica (ex-presidente uruguaio). Mas Lula, com a sua origem humilde, discurso carismático e generoso, reconhecimento global mesmo depois de preso, é visto pela esquerda e pelo ‘kirchnerismo’ como o Mandela da América Latina”, define Berensztein.

Déjà-Vu da esquerda regional

Oficialmente, Lula será o convidado especial para a comemoração da metade do mandato de quatro anos do presidente argentino, dos 38 anos da recuperação da Democracia no país e do Dia Internacional dos Direitos Humanos. Na prática, no entanto, o ato é partidário.

Segundo o consultor em opinião pública, Jorge Giacobbe, as imagens positivas do presidente Alberto Fernández e da vice, Cristina Kirchner, estão em 16,8% e 18%, respectivamente, enquanto a imagem negativa chega a 72,5% e 74,5%.

Paralelamente, nesta mesma sexta-feira, a 1,5 Km da Praça de Maio em linha reta, assumem os novos legisladores de maioria opositora. Nas recentes eleições legislativas, o governo obteve apenas 33% dos votos, enquanto os restantes 67% foram para forças opositoras.

A imagem de Lula resgata um tempo em que a esquerda vivia o seu auge eleitoral associado ao “boom” das commodities que permitiram a maior bonança econômica da Argentina desde a Segunda Guerra Mundial.

Lula chegou a Buenos Aires nesta quinta-feira (9), acompanhado do seu antigo chanceler, Celso Amorim. A agenda pública começa nesta sexta-feira de manhã com uma reunião na Casa Rosada, Palácio do governo argentino, com o presidente Alberto Fernández.

Conveniências para Lula e para Cristina Kirchner

Na sequência, Lula será o primeiro estrangeiro a receber um prêmio argentino pela defesa dos Direitos Humanos e será homenageado pela sua luta contra o chamado “lawfare”. Essa é uma iniciativa para associar o caso Lula com uma suposta injustiça contra Cristina Kirchner.

“O caso Lula e os processos judiciais de Cristina Kirchner são incomparáveis. Os processos por corrupção de Cristina envolvem dezenas de propriedades e uma cifra astronômica com muitas evidências. É uma assimetria absoluta. Ela faz seu o argumento de ‘lawfare’ porque lhe convém transmitir que o caso Lula é a mesma coisa”, compara Sergio Berensztein.

“Se houvesse um ranking de corrupção na América Latina, Lula não teria os níveis de suspeita que podem ter outros dirigentes na região. Ele atravessou dificuldades judiciais, mas não está identificado, na Argentina, como um dirigente corrupto. E isso é perfeito para os propósitos do governo argentino”, avalia Lucas Romero.

Porém, se Lula serve para os objetivos do governo argentino, não está claro que sirva aos propósitos eleitorais de Lula associar-se à imagem de Alberto Fernández e de Cristina Kirchner, apontados pelos críticos e pelo bolsonarismo brasileiro como aliados do chavismo da Venezuela.

“Se existe alguma margem para Bolsonaro tornar a corrida eleitoral mais competitiva é instalar a polarização, associando Lula ao chavismo e ao kirchnerismo. Bolsonaro tentará aproveitar essa visita para reforçar a sua crítica. Para a estratégia ter sucesso, vai depender da imagem que os brasileiros têm de Alberto Fernández e de Cristina Kirchner, especialmente os eleitores independentes que não estão na polarização Lula-Bolsonaro”, pondera.

“Talvez Lula sinta que tenha margem eleitoral para fazer esta visita estratégica. Ele tem vantagem nas intenções de voto e falta muito para as eleições no Brasil. Então, Lula pode privilegiar um vínculo estratégico com a Argentina, visando um futuro, depois de chegar ao poder”, aponta Romero.

“Numa campanha eleitoral, 95% é política doméstica. Os reconhecimentos internacionais são complementares. Se o tom do discurso na Praça de Maio for mais ecumênico do que aguerrido, se for mais pela união do que pela polarização, pode ser conveniente a Lula mostrar-se aclamado pela multidão como líder internacional”, indica Berensztein.

Diferenciação de Bolsonaro

De qualquer forma, Lula terá uma boa oportunidade para dar um simbólico pontapé na sua pré-campanha com uma agenda que lhe permite, por contraste, diferenciar-se de Bolsonaro.

“Lula se diferencia de Bolsonaro por ser um líder mundial e por ter reconhecimento no exterior. Transmite a imagem de um Brasil inserido no mundo. É uma diferenciação evidente”, afirma Berensztein.

Na sexta-feira, ao ser homenageado pela defesa dos Direitos Humanos, estará ao lado das Mães e das Avós da Praça de Maio, vítimas de uma ditadura que Bolsonaro nega ter existido.

No sábado, Lula será homenageado pelo movimento sindical argentino. Nesse encontro, terá a chance de se diferenciar da visão liberal do presidente Bolsonaro e do ministro da Economia, Paulo Guedes, no que se refere a direitos trabalhistas e o debate protecionismo versus livre comércio.

O ponto culminante da visita será o discurso na Praça de Maio. Em 2003, Fidel Castro discursou a uma multidão em frente à Faculdade de Direito em Buenos Aires. Em 2006, também discursou em Córdoba. Hugo Chávez foi protagonista em Mar del Plata em 2005.

“Em 1973, na posse do então presidente Héctor Cámpora, os presidentes do Chile, Salvador Allende, e de Cuba, Osvaldo Dorticós, foram aclamados na Praça de Maio como representantes da esquerda latino-americana, mas não discursaram. Esta será a primeira vez que um líder estrangeiro fala ao povo argentino na Praça”, recorda Berensztein.

“A Praça de Maio é um teatro muito especial para a política argentina e pode ser o palanque para um discurso de projeção internacional”, completa Romero.
Relações congeladas entre Bolsonaro e Fernández

Tudo isso é uma forma de Lula agradecer a visita que recebeu na prisão por parte do então candidato Alberto Fernández, hoje presidente. Aquela visita, em julho de 2019, foi aproveitada como um ato de campanha de Fernández, mas também para chamar a atenção para a situação de Lula.

A visita foi o ponto de partida para as profundas diferenças entre Bolsonaro e Fernández. O presidente brasileiro interpretou a visita como ingerência em assuntos domésticos do Brasil e passou a ver o argentino como amigo do seu principal inimigo.

Agora, a visita de Lula a Alberto Fernández novamente volta a afastar os governos de Brasil e Argentina, depois de alguns sinais de aproximação nos últimos meses.

Dentro de uma semana, no dia 17 de dezembro, a reunião de Cúpula do Mercosul em Brasília que seria presencial, passou ao formato virtual. Não haverá proximidade entre os presidentes. O argumento oficial foi o avanço da variante ômicron, mas analistas e diplomatas não têm dúvida da influência da visita de Lula, sobretudo com um Bolsonaro que nunca teve preocupações sanitárias com os deslocamentos.

“É provável que a relação entre Bolsonaro e Fernández continue agora como começou, como quando Alberto Fernández foi eleito: uma relação distante, com curto-circuitos, talvez a mais fria entre dois presidentes da Argentina e do Brasil na história”, conclui Lucas Romero, da Synopsis.

// RFI

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