As ‘fazendas de cadáveres’ onde corpos se decompõem ao ar livre

(dv) Mauricio Marat / Mexico’s National Institute of Anthropology and History

No meio de um gramado há alguns arbustos de aproximadamente um metro de altura. Eles são um pouco mais altos que os demais, porque o pedaço de terra em que crescem se alimenta de substâncias liberadas por cadáveres humanos que apodrecem por várias semanas.

De longe, o local parece um campo ideal para dar um passeio, mas quando você entra nos arbustos, um forte mau cheiro de morte faz seus olhos lacrimejarem.

O dia está ensolarado e a temperatura chega a 30º – o ar é úmido e pesado. Neste terreno de pouco mais de um hectare existem 15 corpos humanos espalhados. Eles estão todos nus, alguns trancados em jaulas de metal. Alguns estão cobertos com um plástico azul, outros enterrados e outros diretamente ao ar livre.

Cada corpo forma uma silhueta que parece um montinho de grama morta, mas então, naquele mesmo pedaço de terra, um arbusto vigoroso crescerá, mais alto que os outros.

Esse local aberto é um laboratório de antropologia forense da Universidade do Sul da Flórida, que opera desde 2017 no condado de Pasco, a 25 minutos da cidade de Tampa. O campo fica em uma zona rural, próximo de um presídio.

As pessoas comumente chamam o local de “fazenda de cadáveres”, embora os cientistas prefiram chamá-lo de cemitério forense ou laboratório de tafonomia, área da ciência que estuda o que acontece a um organismo após sua morte.

Na verdade, essa “fazenda” inicialmente seria localizada no condado de Hillsborough, a cerca de 80 km de Pasco, mas os vizinhos se opuseram ao projeto porque temiam a desvalorização de suas propriedades diante do fedor de corpos em decomposição.

As críticas a este tipo de laboratório não vêm apenas de pessoas que não querem viver perto de pessoas mortas. Mesmo dentro da comunidade científica há aqueles que são céticos sobre a necessidade e o valor científico das fazendas de cadáveres. Mas como são essas fazendas, para que servem e por que geram tanta controvérsia?

A fazenda de cadáveres da Universidade do Sul da Flórida é uma das sete existentes nos Estados Unidos. Também há algumas na Austrália. Países como Canadá e Reino Unido têm planos para abrir seus primeiros campos do tipo neste ano.

Os cadáveres que estão na fazenda da universidade americana são de pessoas que antes de morrer decidiram doar voluntariamente seus corpos para a ciência. Em outros casos, são os parentes do falecido que decidem dar o corpo à perícia.

O objetivo principal desses lugares é entender como o corpo humano se decompõe e o que acontece no ambiente que o rodeia durante esse processo. A compreensão desse processo fornece dados para a resolução de crimes ou para a melhora das técnicas de identificação de pessoas.

“Quando alguém morre ocorrem muitas coisas ao mesmo tempo (no corpo)“, diz Erin Kimmerle, diretora do Instituto de Antropologia Forense da Universidade do Sul da Flórida. “Ocorre desde a decomposição natural, até a chegada de insetos e mudanças na ecologia.”

Kimmerle e sua equipe consideram que a melhor maneira de entender o processo de decomposição é observá-lo em tempo real, com corpos reais em um ambiente real. Segundo Kimmerle, em geral o corpo humano passa por quatro etapas depois da morte. Na primeira, chamada de “corpo fresco”, a temperatura do cadáver cai e o sangue deixa de circular – ele também se concentra em certas partes do corpo.

Então, durante a “decomposição inicial”, as bactérias começam a consumir os tecidos – a cor da pele também começa a mudar. No terceiro estágio, a “decomposição avançada”, os gases se acumulam, o corpo incha e os tecidos se rompem.

Finalmente, inicia-se a “esqueletização”, que se evidencia pela primeira vez no rosto, nas mãos e nos pés. Em algumas condições de umidade e outros fatores, o corpo pode ser naturalmente mumificado. Esses estágios, no entanto, são influenciados pelo ambiente em que o corpo está – e isso é de interesse para a ciência forense.

Na fazenda, alguns corpos ficam dentro de uma cerca de metal para que animais carnívoros, como aves de rapina, não os ataquem. A gaiola impede que eles sejam comidos por gambás e abutres, então, a perícia pode estudar como ocorre a decomposição tecidual. Os cientistas também observam a ação dos vermes, que se alimentam dos órgãos internos do cadáver.

Por outro lado, outros corpos estão totalmente expostos, à mercê dos animais que chegam em bandos. Eles fazem buracos na pele, rasgam músculos e tecidos e até mesmo rodeiam o corpo para comer o máximo que podem.

Enquanto isso, os pesquisadores visitam a fazenda todos os dias para tirar fotos e filmar, observar como a decomposição evolui e comparar o processo de cada um de acordo com as condições do local onde estão.

Geólogos e geofísicos trabalham em conjunto com a perícia para analisar o solo, a água, o ar e a vegetação. Eles estão interessados ​​em saber como as substâncias liberadas pelo corpo mudam as propriedades do local onde ele se decompõe. “Tentamos obter o máximo de informações de cada indivíduo”, diz Kimmerle.

Quando os corpos já são apenas esqueletos, eles são transportados para o que a perícia chama de “laboratório seco”, onde limpam os ossos e os armazenam para que estejam disponíveis para estudantes e pesquisadores. Os dados coletados por pesquisadores de tafonomia são úteis para investigações de medicina legal e forense.

A maneira pela qual um corpo é decomposto serve para refinar a estimativa de há quanto tempo uma pessoa está morta ou se o corpo foi movido ou enterrado. As substâncias que o cadáver libera e o estado do corpo também dão pistas sobre a origem da pessoa. Isso, somado a outros dados genéticos e análise óssea, fornece informações que podem ser aplicadas em casos criminais que ainda não foram resolvidos.

É por isso que parte da missão dessas fazendas é prestar serviços às autoridades que tentam esclarecer homicídios. Para muitos pode parecer chocante trabalhar diariamente com a morte e ver corpos humanos em um estado que normalmente preferimos esconder.

Para Kimmerle, no entanto, essa questão não é a que causa maior perturbação. “Como profissional da ciência, a gente separa essa conexão”, diz ele, referindo-se ao tabu que muitas vezes acompanha o tema da morte. “Trabalhamos com muitas investigações de homicídios, então, o maior desafio é encarar histórias realmente trágicas. Para mim, o mais tenebroso é ver o que uma pessoa é capaz de fazer com a outra”, diz Kimmerle.

Ele também afirma que é um desafio confrontar as histórias de famílias que perderam seus filhos 20 ou 30 anos atrás e ainda estão procurando por seus restos mortais. Para ela, seu trabalho faz sentido na medida em que ajuda a esclarecer alguns dos quase 250 mil crimes não resolvidos que existem nos Estados Unidos desde 1980.

Desde a sua inauguração em outubro de 2017, o cemitério forense recebeu 50 corpos de doadores e tem uma lista de 180 pré-doadores, isto é, pessoas vivas que já decidiram que quando morrerem querem se entregar, literalmente, à ciência. Os doadores são em sua maioria idosos que já estão planejando seus últimos anos de vida. “É como planejar sua profissão post-mortem”, diz Kimmerle. “É como se os doadores ajudassem a resolver crimes após a morte.”

Entre as restrições que existem para doar o corpo estão doenças infecciosas que possam colocar em risco as pessoas que posteriormente estudarão o corpo.

As fazendas de cadáveres fornecem dados para a ciência, mas também têm limitações. Patrick Randolph-Quinney, um antropólogo biológico da Universidade Central de Lancashire, no Reino Unido, se diz a favor deste tipo de laboratório, mas afirma que as pesquisas na área ainda são uma ciência emergente.

“O problema com essas instalações abertas é que existe uma série de variáveis que não se pode controlar, mas apenas monitorar”, disse Randolph-Quinney à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC. Isso torna os dados que eles produzem muito mais difíceis de interpretar, porque eles não se prestam facilmente para fazer previsões.”

Para o antropólogo, o desafio dos cemitérios forense é encontrar novos padrões para coletar informações e compartilhá-las com outros pesquisadores para obter resultados de maior significância estatística.

Sue Black, antropóloga forense da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, também expressa suas reservas. Em um artigo na revista Nature, Black questiona o valor científico dessas fazendas, já que seus estudos são baseados em pequenas amostras e resultados altamente variáveis. A revista também cita um livro que Black publicou em 2018, no qual ela se refere às fazendas de cadáveres como “um conceito espantoso e macabro”.

Kimmrle, por sua vez, vê um futuro promissor para esses laboratórios e acredita que no futuro haverá novas unidades ao redor do mundo. “Quem entende esse tipo de pesquisa, a profundidade delas e sua importância em aplicações práticas, verá que elas são muito necessárias”, conclui Kimmerle.

// BBC

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