Moro e Lava Jato teriam se mobilizado para interferir na Venezuela

Marcelo Camargo / Abr

Juiz Sérgio Moro

O ex-juiz Sergio Moro e integrantes da força-tarefa da operação Lava Jato teriam se mobilizado para divulgar informações sigilosas obtidas numa delação, com o objetivo de favorecer a oposição na Venezuela e “contribuir na luta contra a injustiça”, segundo reportagem divulgada neste domingo (07/07) pelo portal The Intercept Brasil em conjunto com o jornal Folha de S. Paulo.

O novo conteúdo das supostas mensagens trocadas entre Moro e a equipe de procuradores, publicadas na série de denúncias do The Intercept em parceria órgãos de imprensa brasileiros, revela que a ideia teria partido do próprio juiz, que ocupa atualmente o cargo de ministro da Justiça.

“Talvez seja o caso de tornar pública a delação da Odebrecht sobre propinas na Venezuela. Isso está aqui ou na PGR [Procuradoria-Geral da República]?”, teria perguntado Moro ao chefe da Lava Jato em Curitiba, Deltan Dallagnol, no dia 5 de agosto de 2017.

“Não dá para tornar público simplesmente porque violaria acordo, mas dá para enviar informação espontânea [à Venezuela], e isso torna provável que em algum lugar no caminho alguém possa tornar público”, respondeu Dallagnol.

Segundo The Intercept, o procurador já teria dito ao juiz, em outra conversa, que “haverá críticas e um preço, mas vale pagar para expor e contribuir com os venezuelanos”.

A Odebrecht admitiu aos procuradores ter pagado propinas para viabilizar diversos negócios em 11 países, incluindo a Venezuela. As informações reveladas pela delação eram mantidas em sigilo por ordem do Supremo Tribunal federal (STF).

O acordo de delação fechado pela empresa junto a autoridades do Brasil, Estados Unidos e Suíça previa que as informações só poderiam ser compartilhadas com investigadores de outros países se houvesse garantias de que estes não tomariam medidas contra a empreiteira e os próprios delatores.

À época das supostas conversas, a Venezuela já estava imersa numa grave crise política e ameaçada de novas sanções por parte dos EUA se seguisse adiante com a fundação da Assembleia Constituinte, criada para se sobrepor à Assembleia Nacional, dominada pela oposição.

As revelações sugerem que os procuradores discutiram intensamente a crise na Venezuela e especulavam sobre o poder de mobilização que o conteúdo da delação poderia ter no país vizinho. “Vejam que uma guerra civil lá é possível e qualquer ação nossa pode levar a mais convulsão social e mais mortes”, teria afirmado o procurador Paulo Galvão.

“Imagina se ajuizamos e o maluco manda prender todos os brasileiros no territorio [sic] venezuelano”, disse, segundo a reportagem, outro procurador, Athayde Ribeiro Costa, em referência ao presidente venezuelano, Nicolás Maduro. Mais tarde, Dallagnol teria minimizado os riscos, afirmando que isso “é algo que cabe aos cidadãos venezuelanos ponderarem: “Eles têm o direito de se insurgir.”

Segundo o conteúdo das mensagens, Dallagnol quis ir além do papel de procurador ao afirmar que seu o objetivo seria “contribuir com a luta contra a injustiça” e que não via nenhum “problema de soberania” ao propor uma interferência em questões internas de um país estrangeiro.

Ele assegurou a seus colegas que Moro os apoiava. “Russo [codinome dos procuradores para Moro, utilizado em várias das mensagens vazadas] diz que temos que nós aqui estudar a viabilidade. Ou seja, ele considera”, teria dito Dallagnol. Após a troca de mensagens, a dúvida sobre a viabilidade ainda permaneceria por ainda mais algum tempo entre os procuradores.

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