Repórter britânico investiga mistério dos corpos com 2 mil anos em pântanos da Dinamarca

maheva bagard laursen / Flickr

Cientistas suspeitam que brejos dinamarqueses eram locais de depósito de sacrifícios humanos para divindidades da Idade do Ferro

Cientistas suspeitam que brejos dinamarqueses eram locais de depósito de sacrifícios humanos para divindidades da Idade do Ferro

A linha férrea entre a alemã Hamburgo e Copenhague, capital da Dinamarca, tem uma paisagem repleta de brejos. E a exemplo do que vem acontecendo em outras localidades do norte europeu, da Irlanda à Polônia, esses pântanos têm se revelado misteriosas tumbas.

Corpos de 2 mil anos de idade vêm sendo descobertos, e muitos arqueólogos acreditam que se tratam de vítimas de sacrifícios religiosos da Idade do Ferro (período iniciado em 1.200 a.C. em regiões da Ásia e da Europa), mortas e delicadamente depositadas nos pântanos como uma oferenda aos deuses.

Outros acadêmicos, porém, especulam que os corpos encontrados podem na verdade ser de criminosos, imigrantes ou viajantes.

Muitos corpos foram acidentalmente descobertos por coletores de turfa, substância gerada pela decomposição de vegetais de áreas alagadas que os dinamarqueses ainda usavam como combustível entre 1800 e 1960.

Autópsias modernas revelaram que quase todas as vítimas – homens ou mulheres – sofreram mortes violentas. Algumas tinham marcas de forca ou cordas ao redor dos pescoços. Outras, as gargantas cortadas.

Sven Rosborn / Wikimedia

O Homem de Tollund foi enforcado e depositado na lama há 2.400 anos, mas de tão preservado apresenta até vestígios de barba

O Homem de Tollund foi enforcado e depositado na lama há 2.400 anos, mas de tão preservado apresenta até vestígios de barba

Pouco se sabe sobre a Dinamarca na Idade do Ferro, já que, por exemplo, não havia uma língua escrita local e poucos documentos escritos por gregos e romanos sobreviveram. Podemos apenas especular sobre o que aconteceu.

Mas há um detalhe importante: nessa época, a maioria das pessoas era cremada. Sendo assim, por que os chamados “corpos do pântano” tiveram um destino diferente? Foi o que o reporter , da BBC, quis descobrir.

Choque

A primeira parada de foi em Vejle, uma cidade de 100 mil habitantes a 240 km de Copenhague.

Lá, encontrou Mads Ravn, arqueólogo-chefe do Vejle Museum, que tem uma fascinante coleção de artefatos, incluindo moedas romanas e broches com a suástica, símbolo que existiu milhares de anos antes dos nazistas – todos encontrados em pântanos e considerados oferendas a deuses, possivelmente da Idade do Ferro.

Em um sarcófago de vidro disposto em um salão escuro nos fundos do museu está o corpo dum Mulher de Haraldskaer, que tem uma expressão de choque em sua face.

Seu rosto não era tão pacífico como o de outros “corpos do pântano” que tinha visto em livros. Era algo estranho, que fez  sentir que estava invadindo sua privacidade.

McLeod / Wikimedia

A Mulher de Haraldskaer tem uma expressão de choque em seu rosto

A Mulher de Haraldskaer tem uma expressão de choque em seu rosto

“Quando ela foi descoberta, em 1835, pensaram que era a rainha viking Gunhildd, que, de acordo com lendas nórdicas, teria sido afogada pelo marido, Harald Bluetooth”, explica Ravn. “Mas isso não é verdade, pois testes de carbono mostraram que ela tem cerca 2,2 mil anos de idade”.

A Mulher Haraldskaer foi encontrada nua, ao lado de um manto, e tinha sido presa ao fundo por galhos de árvores possivelmente depois de morta.

Sulcos em seu pescoço sugerem estrangulamento, e análises forenses adicionais revelaram o conteúdo de seu estômago na hora da morte, incluindo milho-painço e amoras – uma refeição estranha em uma sociedade orientada para o consumo de carne.

“Estamos fazendo análises de isótopos em seu cabelo e trabalhando com uma nova técnica de DNA que extrai material de seu ouvido interno para descobrirmos mais sobre ela”, conta o arqueólogo.

Mágico e sobrenatural

A 10 km para oeste, o Pântano Haraldskaer, onde a mulher foi descoberta, estava coberto por algas verdes brilhantes e cercado por uma camada densa de árvores com cogumelos roxos. Há algo mágico e até sobrenatural, e é fácil ver o porquê de terem sido escolhidos como locais de sacrifício, e porque ainda exercem magnetismo nos dias de hoje.

A próxima parada de foi em Aarhus, a segunda maior cidade dinamarquesa, para visitar o Moesgaard Museum, que abriga uma das melhores coleções sobre a Idade do Ferro na Europa.

A estrela da companhia aqui é o Homem de Grabaulle. Encontrado em 1952, esse corpo extremamente bem preservado encontra-se em posição deitada, pés e pele praticamente intactos, bem como a face, que tem uma expressão serena.

Sven Rosborn / Wikimedia

O Homem de Grauballe é a principal atração do Moesgaard Museum

O Homem de Grauballe é a principal atração do Moesgaard Museum

“Assim como a maioria dos corpos encontrados em pântanos, seu cabelo e pele ficaram avermelhados por causa de um processo químico conhecido como reação de Maillard“, explica Pauline Asingh, diretora de exibições do museu. “Ele é realmente um homem bonito.”

Mas o olhar tranquilo do Homem de Grabaulle contrasta com a violência de seu fim.

“Ele foi forçado a se ajoelhar, e sua garganta foi cortada de orelha a orelha por alguém de pé por trás dele. Mas ele foi colocado com delicadeza no pântano. Pode parecer violento para nós, mas sacrifícios eram uma parte importante da vida cultural desse período”, diz Asingh.

O museu também tem em seu acervo evidências de que os sacrifícios não eram limitados a humanos: em 2015, 13 cães do ano 250 a.C. foram encontrados no Pântano de Skodstrup, perto de Aarhus.

A parada final foi Silkeborg, a 44km a oeste de Aarhus. Lá, o Museum Silkeborg exibe “corpos do pântano” e um deles é considerado um dos mais bem-preservados espécimes do mundo.

O Homem de Tollund, de cerca de 2,4 mil anos de idade, está tão bem conservado que autoridades dinamarquesas pensaram que ele era um menino desaparecido quando foi encontrado, em 1950.

Assim como outras vítimas, ele foi enforcado. A corda que ajudou a matá-lo ainda estava enrolada em torno de seu pescoço, e seu rosto estava perfeitamente intacto.

Na sala ao lado estava a Mulher de Elling, achada a apenas 40 metros do Homem de Tollund e que deve ter morrido na mesma época. Também se acredita que ela tenha sido enforcada, e é uma atração popular por causa de seu cabelo vermelho, amarrado em uma longa trança de 90 cm de comprimento, com um elaborado nó.

Ole Nielsen, o arqueólogo do museu, levou a visitar Bjaeldskovdal, um pântano 15 km distante de onde os corpos foram encontrados.

O pais tem uma das maiores concentrações de brejos – e de corpos encontrados – do mundo. Boa parte está perfeitamente preservada por causa de ácidos produzidos pelo musgo que é tão presente nesse ecossistema.

Ao observar o sinistro pântano de Bjaeldskovdal, se torna evidente seu poderoso efeito – que lentamente, durante milênios, tem o poder de preservar em suas profundezas escuras qualquer corpo que sua fome consiga apanhar.

A composição dos pântanos pode explicar a razão pela qual são achados na Dinamarca tantos corpos em bom estado de preservação, e com detalhes tão nítidos.

Mas ainda ninguém descobriu porque motivo tantos destes “corpos do pântano” parecem ter tido mortes com tão evidentes indícios de violência e crueldade – mais ainda do que os que se encontram de vez em quando no deserto do Nevada, para os lados de Las Vegas.

Ciberia // BBC

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