Uma revista científica pouco conhecida publicou um falso estudo sobre câncer, criado por jornalistas, no contexto de uma pesquisa sobre publicações pouco honestas.
O estudo criado visa demonstrar que qualquer pessoa, desde que pague, pode fazer passar “falsa ciência” por verdadeira, informa nesta sexta-feira (20) o jornal francês Le Monde.
Os jornalistas de dois veículos de comunicação alemães, o diário Süddeutsche Zeitung e a rádio pública NDR, transmitiram ao Journal of Integrative Oncology “os resultados de um estudo clínico” que apontavam para “o extrato de própolis ser mais eficaz no caso do câncer colorretal do que as quimioterapias convencionais”.
A própolis é uma substância resinosa obtida das árvores e transformada pelas abelhas para construírem os alvéolos das colmeias.
“O estudo era falso, os dados fabricados e os autores, filiados a um instituto de pesquisa fictício, também não existiam. Porém, a publicação foi aceita em menos de dez dias e publicada em 24 de abril”, detalhou o jornal francês.
O site do Le Monde disponibilizava uma ligação na internet para uma versão do estudo, que, entretanto, foi retirado, depois de os responsáveis da revista terem sido avisados.
Lá se lia que os pesquisadores tinham comparado a eficácia da quimioterapia com cápsulas de própolis. Na conclusão do falso artigo científico, era aludido ainda um tema sem qualquer relação com o assunto, no caso, o efeito das massagens sobre as doenças trombo embólicas.
A ministra alemã para a Pesquisa Científica, Anja Karliczek, se declarou favorável a um inquérito para determinar como esse estudo falso chegou a ser publicado. “É no próprio interesse da ciência”, declarou, citada pela agência noticiosa alemã, a DPA.
Para a ministra, tudo deve ser feito “para que a credibilidade e a confiança na ciência não sejam afetadas (…). Tais erros devem ser expostos, porque só assim se pode mudar o que está ruim”.
A revista em questão é publicada por um editor indiano, Omics. Mas, segundo o Le Monde, existem “dezenas de editoras pouco escrupulosas”, que “criaram centenas de revistas em aceso livre com nome ressonante, com todas as características de verdadeiras revistas eruditas”, e estão presentes em várias disciplinas científicas.
Sem qualquer controle sobre a qualidade dos trabalhos apresentados, reclamam aos autores “centenas de euros” por artigo para o publicarem, segundo o Le Monde e a NDR.
Nas revistas mais prestigiadas, onde publicar necessita uma apreciação do texto por cientistas conhecedores do campo científico em questão, é feita a avaliação por pares, e onde o processo de validação requer geralmente vários meses, os autores não pagam.
Ciberia // ZAP
Finalizando o artigo, os autores não pagam, porém os direitos autorais dos artigos são transferidos para a revista.