(dr) João Figueiredo / Facebook

Menos de um dia depois do homicídio de Marielle Franco, João Maria Figueiredo, agente e segurança de 36 anos, disse que seria o próximo. E foi mesmo – nove meses depois.
Não tinham passado nem 24 horas da execução da vereadora Marielle Franco no Rio, em 14 de março de 2018, quando João Figueiredo pegou no microfone no Fórum Social Mundial, em Salvador, para dizer “hoje ela foi a vítima, o próximo pode ser eu“.
Nove meses e uma semana depois, Figueiredo, membro do grupo Policiais Antifascismo, foi assassinado em Natal, capital do Rio Grande do Norte.
O policial, de 36 anos, cumpria no dia 21 de dezembro, às 17h, o percurso de sempre do trabalho para casa, na região norte de Natal, perto da periférica São Gonçalo do Amarante, quando foi atingido ao volante da sua moto por cinco tiros, três no lado direito do corpo e dois no lado esquerdo, junto à boca e ao ombro.
Os assassinos levaram a arma e o celular que Figueiredo transportava, mas não mexeram no dinheiro e deixaram a moto no lugar do crime. A polícia ainda trabalha com a possibilidade de latrocínio – roubo seguido de morte –, além da hipótese de execução.
Segundo os quatro policiais, “em princípio é homicídio e não latrocínio”. “Tudo bem que não seria fácil tirar dele o dinheiro e ficar com a moto seria perigoso porque é facilmente localizável, mas ainda assim o fato de ter sido morto no percurso que fazia regularmente leva a crer que foi homicídio.”
Soma-se à tese de homicídio o fato de as munições encontradas no local serem de calibre 40, de uso exclusivo da polícia. Para a tese contrária contribuem os números da violência no Rio Grande do Norte, o estado mais inseguro do país, com 68 mortes a cada 100 mil habitantes e o registro de 26 agentes mortos só em 2018.
A polícia também recorda que muitos projéteis calibre 40 estão hoje nas mãos de criminosos, após assaltos a delegacias.
Os integrantes do Policiais Antifascismo, a que Figueiredo pertencia, um grupo organizado nas redes sociais em 2017 a partir do Rio de Janeiro, não têm dúvidas, no entanto, de que se tratou de execução.
“A gente não pode afirmar nada categoricamente, mas tudo aponta para uma execução”, diz Alexandre Santos, investigador da Polícia Civil de São Paulo, citado pelo jornal Folha de S. Paulo.
Santos afirma ter sofrido perseguições, dentro da própria polícia, por pertencer ao grupo de cerca de 400 agentes espalhados pelo país que defende o respeito aos direitos humanos, a descriminalização das drogas e outros pontos minoritários nas forças policiais brasileiras.
O próprio Figueiredo, que atuava como segurança de Fernanda Bezerra, governadora do Rio Grande Norte e única mulher a desempenhar essas funções no Brasil, chegou a ser preso em 2016 pelo comando da PM após criticar nas redes sociais o sistema de segurança pública do país. Bezerra, que considerava o soldado “um irmão”, prometeu “firmeza em uma cobrança séria e profunda sobre quem foram os responsáveis do crime”.
Ciberia // ZAP