Eduardo Bolsonaro desiste de ser embaixador nos EUA

Lucio Bernardo Júnior / Câmara dos Deputados

Eduardo Bolsonaro

Filho do presidente anuncia decisão após conquistar liderança do PSL na Câmara e em meio à incerteza sobre apoio de senadores à sua indicação à embaixada. Deputado diz que fica no Brasil para defender pauta conservadora.

Depois de ser confirmado como líder do PSL na Câmara, Eduardo Bolsonaro (SP) desistiu nesta terça-feira (22/10) da indicação para ser embaixador do Brasil nos Estados Unidos. O filho do presidente Jair Bolsonaro alegou que já pensava há tempos na decisão e negou que a vitória na disputa pela liderança do partido na Câmara tenha influenciado sua desistência.

“Foi uma decisão que eu estava pensando há muito tempo. […] Não foi esse [a liderança do partido] o fator determinante para minha desistência de ser embaixador”, disse Eduardo a jornalistas ao comentar a desistência. “Tem a questão do meu eleitorado. Confesso, não era a maioria que estava apoiando ali”, acrescentou.

A desistência de Eduardo ocorre após o indicativo de que a indicação dele ao posto de embaixador não obteria apoio suficiente no Senado. A Casa precisava dar o aval à indicação, após uma sabatina na qual o filho do presidente teria de provar que é capaz de exercer o cargo em Washington, embora não tenha experiência diplomática. Sem a garantia de apoio à sua nomeação, ele corria o risco de se tornar o pivô de uma amarga derrota para o presidente.

A jornalistas, o deputado justificou a desistência argumentando que no Brasil terá um papel “tão importante quanto ou talvez mais” do que na embaixada em Washington. Ele ressaltou que não desistiu do posto devido a um pedido do pai e alegou que não sabia da intenção de Bolsonaro de indicá-lo para o cargo.

“Confesso que quando saiu o meu nome, quando fui indicado, eu fiquei até surpreso, não esperava que isso acontecesse. Num primeiro momento eu fiquei feliz sim, óbvio. Quem não se sente prestigiado para assumir esse posto?”, afirmou Eduardo.

Em discurso no plenário da Câmara, Eduardo afirmou que permanece no Brasil para defender “princípios conservadores” e destacou que teria legitimidade para assumir o posto em Washington ao comparar sua indicação à do ex-senador e ex-deputado federal Tilden Santiago, então filiado ao PT, que foi nomeado ao cargo de embaixador em Cuba por Lula pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2003.

“Embaixador é alguém que representa o Brasil no exterior, e se um político que não conseguiu se eleger for representar todo o conjunto dos brasileiros no exterior, o que dizer então sobre o deputado mais votado da história do país? Certamente não me faltaria legitimidade”, ressaltou Eduardo.

O deputado agradeceu ainda ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por supostamente ter impedido intenções de “internacionalização da Amazônia” e afirmou que ainda pode ser embaixador no futuro.

Em viagem ao Japão, o presidente parabenizou o filho pela decisão, mas não descartou indicá-lo ao posto diplomático. “Quem sabe no futuro a gente volte a esse assunto, mas eu acho que, pelo menos no próximo ano, não se discute”, disse Bolsonaro.

Indicação polêmica

A intenção de indicar Eduardo foi alvo de críticas no meio político, diplomático e no Judiciário, que logo acusaram o presidente de prática de nepotismo. Em reação a críticas, Bolsonaro reconheceu que pretendia beneficiar o filho. “Pretendo, está certo. Se puder dar um filé mignon ao meu filho, eu dou”, afirmou.

Com 35 anos, Eduardo tem a idade mínima estabelecida pela lei brasileira para embaixadores. Deputado federal em segundo mandato e chamado de “03” pelo pai, ele é escrivão concursado da Polícia Federal e não tem formação na área internacional.

A intenção do presidente representou uma quebra sem precedentes na tradição diplomática do país. Nunca na história republicana brasileira um presidente indicou um filho para um cargo de embaixador, ainda mais em um posto tão sensível quanto a representação nos EUA.

No moderno mundo da diplomacia internacional, a iniciativa por parte de um chefe de Estado ou de governo de entregar uma embaixada para algum parente só encontra paralelos em ditaduras ou pequenos países subdesenvolvidos que aparecem no topo de rankings que medem corrupção. Grupos esses que incluem Arábia Saudita, Chade, Uzbequistão e Armênia.

A embaixada brasileira em Washington já foi preenchida com indicações políticas no passado, como o ex-governador Juracy Magalhães nos anos 1960 e o banqueiro Walther Moreira Salles na década de 1950, mas nenhum dos indicados tinha relação de parentesco com o então presidente.

Após o anúncio de sua indicação, em julho, Eduardo tentou minimizar a sua falta de experiência diplomática. “Não sou um filho de deputado que está do nada vindo a ser alçado a essa condição. Tem muito trabalho sendo feito, sou presidente da Comissão de Relações Exteriores [da Câmara], tenho uma vivência pelo mundo, já fiz intercâmbio, já fritei hambúrguer lá nos Estados Unidos”, disse.

Nesta terça-feira, ao discursar no plenário da Câmara, Eduardo voltou a mencionar seu trabalho em restaurantes nos EUA: “Este que vos fala, filho de militar do Exército brasileiro e deputado federal, que foi zombado por ter tido aos 20 anos um trabalho digno e honesto em restaurantes de fast food nos Estados Unidos, diz que fica no Brasil para defender os princípios conservadores, para fazer do tsunami que foi a eleição de 2018 uma onda permanente.”

Embora o anúncio da intenção da indicação tenha ocorrido há mais de três meses, o início do processo formal no Senado vinha sendo postergado devido aos temores de falta de apoio ao nome de Eduardo entre os parlamentares.

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