Golfinhos têm um truque para comer. Como eles o aprendem é o mais surpreendente

Sabe quando você está comendo algo de um pacote, digamos salgadinhos, e a comida está quase no fim, então você levanta a embalagem para sacudir o resto dentro de sua boca? Bom, golfinhos também fazem isso, só que com peixes dentro de conchas.

O truque, raramente documentado, foi observado em Shark Bay, na Austrália, onde golfinhos parecem aplicá-lo para conseguir comida: eles perseguem peixes para dentro de conchas vazias, coletam a concha, a levam para a superfície e usam seus bicos para levantá-la e empurrar a presa para dentro de suas bocas.

Conhecido em inglês como “shelling” ou “conching”, que significa algo como “sair da casca”, o comportamento é interessante para os cientistas principalmente pelo modo como os animais o aprendem: observando e imitando uns aos outros.

A maioria dos golfinhos obtém habilidades como essa, que requerem o uso de ferramentas, graças aos ensinamentos de suas mães. A arte de “conching”, no entanto, parece ser adquirida através da imitação dos movimentos de “amigos”, ou seja, de animais não relacionados biologicamente entre si.

Essa descoberta, realizada por uma equipe internacional de pesquisadores, é mais uma evidência da inteligência dos golfinhos e de sua capacidade de aprendizado tanto dentro quanto fora de suas famílias nucleares, algo normalmente associado apenas a espécies primatas avançadas como orangotangos, chipanzés e seres humanos.

O estudo

É fácil suspeitar que golfinhos aprendem estratégias de alimentação com seus colegas; quantificar o que motiva esse comportamento, contudo, é extremamente desafiador e requer anos de dados detalhados em um número grande de indivíduos.

O novo estudo, liderado por Simon Allen da Universidade de Bristol (Reino Unido) e Michael Krützen da Universidade de Zurique (Suíça), é o que chegou mais perto disso até hoje.

Iniciado em 2007, os pesquisadores passaram 11 anos coletando informações genéticas e comportamentais de mais de mil golfinhos, identificando entre eles 19 indivíduos que praticaram “conching” 42 vezes.

Esse número “baixo” é provavelmente devido a dificuldade em se registrar esse truque. O “conching” tem que ocorrer de forma visível e próximo ao barco dos pesquisadores, quando eles estão lá. Além disso, é muito rápido – dura apenas alguns segundos. Logo, o comportamento pode até ocorrer com mais frequência, sem os pesquisadores conseguirem registrá-lo.

Dito isto, a tática provavelmente não é utilizada o tempo todo, e certamente nem todos os golfinhos sabem usá-la, explica Sonja Wild, ecologista comportamental do Instituto Max Planck (Alemanha) e uma das autoras do novo estudo.

Aprendendo com os colegas

O mais interessante é que todos os golfinhos que praticaram “conching” no estudo tinham uma coisa em comum: convívio social.

Embora não fossem diretamente relacionados (por exemplo, irmãos), uma análise computacional indicou que eles pertenciam a muitos dos mesmos grupos e redes sociais.

“Quanto mais tempo dois indivíduos passam juntos, maior a probabilidade de copiar o comportamento um do outro”, disse a Dra. Wild.

Isso distingue o ato de “conching” de outras estratégias alimentares aprendidas com as mães, como o “sponging” (do inglês para “esponja”), em que os animais colocam esponjas marinhas nos narizes para protegê-los enquanto se alimentam na areia áspera do fundo do oceano.

Hipóteses

Segundo a Dra. Wild, depois que uma grave onda de calor atingiu Shark Bay em 2011, o que causou muitas mortes entre a vida marinha local, a frequência do comportamento aumentou um pouco.

Talvez, depois da catástrofe, aprender “conching” com os colegas se tornou uma forma de encontrar mais comida para os golfinhos.

Infelizmente, muito sobre o comportamento ainda é desconhecido para a ciência. Especialistas não envolvidos com o novo estudo, como Janet Mann da Universidade de Georgetown (EUA), dizem que ele pode ser aprendido não somente com colegas, mas também com as mães. Inclusive, a disponibilidade de conchas no oceano pode inspirar golfinhos a explorarem e inovarem por conta própria.

De qualquer maneira, as observações são originais e incríveis, e mostram quão próximos os golfinhos estão do reinado de habilidades primatas.

Um artigo sobre a pesquisa foi publicado na revista científica Current Biology.

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