Macri diz que não foi golpe e Mercosul estaria melhor sem a Venezuela

Guillermo Viana y Nahuel Padrevecchi-gv / GCBA / Flickr

O presidente da Argentina, Mauricio Macri

O presidente da Argentina, Mauricio Macri

O presidente da Argentina, Mauricio Macri, considera que o Mercosul estaria melhor sem a Venezuela; que o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff não foi um golpe; e que a parceria com o Brasil está acima das “políticas conjunturais” do momento.

Ele manifestou essas opiniões nessa quarta-feira (28), em entrevista a um pequeno grupo de jornais brasileiros –  cinco dias antes de receber o presidente Michel Temer, que viajará para Buenos Aires na próxima segunda-feira (3).

A viagem para a Argentina será a primeira visita bilateral de Temer, que, como presidente, fez duas viagens ao exterior – à China, para a reunião do G-20 (grupo dos vinte países mais desenvolvidos) e aos Estados Unidos (para a Assembleia Geral das Nações Unidas). Ele chegará a Buenos Aires no final da manhã, acompanhado de um grupo de ministros, para se reunir com Macri.

Depois do almoço, Temer viajará a Assunção para um encontro com o presidente do Paraguai, Horácio Cartes.

Na agenda do encontro entre Mauricio Macri, Temer e Cartes, que ainda não foi definida, estão temas que preocupam os três governos: o combate ao narcotráfico e ao contrabando na Tríplice Fronteira; a recuperação econômica regional (depois da queda dos preços das commodities); e o futuro do Mercosul, que hoje vive uma crise institucional.

Mercosul

Macri disse na entrevista aos jornais brasileiros que está muito preocupado com a Venezuela. Desde a campanha para as eleições presidenciais argentinas e depois de sua posse, em dezembro, ele tem criticado o presidente venezuelano Nicolás Maduro, por considerar que estava violando os Direitos Humanos ao prender líderes opositores, acusados de conspirar contra o governo ou de estimular a violência.

“Sinto que o governo de Maduro radicaliza a sua posição, em vez de gerar uma abertura para o diálogo”, disse.

Em relação à permanência da Venezuela no Mercosul, ele foi mais enfático que a ministra das Relações Exteriores da Argentina, Susana Malcorra – candidata para ocupar a Secretaria-Geral das Nações Unidas.

“Na minha opinião, a entrada da Venezuela não foi um acréscimo positivo ao Mercosul”, disse Macri. Segundo ele, o bloco regional teria avançado mais “sem a Venezuela de hoje”.

Além de citar o “colapso econômico”  venezuelano (marcado por uma inflação anual de três dígitos e desabastecimento), Macri considera que o país “não respeita as normas democráticas”.

Ele disse que, se o país não se adequar às normas do Mercosul até o dia 1º de dezembro, “deverá deixar de fazer parte” do bloco regional.

Dezembro é um mês crucial para o presidente venezuelano, em termos de política interna: a oposição, que há nove meses conquistou maioria parlamentar pela primeira vez em dezessete anos, está juntando assinaturas para fazer um referendo revogatório – mecanismo constitucional que permite destituir Maduro antes do fim de seu mandato, em 2019.

Os oposicionistas acusam a Justiça Eleitoral de tomar partido do governo e fazer de tudo para atrasar o processo.

Três dos quatro fundadores do Mercosul (Argentina, Brasil e Paraguai) questionam a permanência da Venezuela no bloco regional, alegando que o país não cumpriu os requisitos necessários, no prazo estipulado (meados de agosto) para ser considerado membro pleno.

Entre os vários acordos a serem incorporados, está um  protocolo de defesa da democracia.

O Uruguai (por questões políticas internas) manteve-se neutro, mas assinou o documento, impedindo o governo venezuelano de assumir a presidência pro-tempore do Mercosul no final de junho (que é rotativa e muda a cada seis meses, de acordo com a ordem alfabética).

Até dezembro, o bloco será administrado por um colegiado dos quatro membros fundadores. Se a Venezuela não cumprir suas obrigações até lá, corre o risco de ser suspensa.

Impeachment

Em relação ao impeachment no Brasil, Macri disse que a “continuidade política” foi respeitada, assim como os procedimentos jurídicos e constitucionais.  “Hoje [o Brasil] é governado pelo vice-presidente da chapa do PT, que ganhou as últimas eleições [presidenciais]”, disse.

Mas, segundo ele, Argentina e Brasil estão acima das conjunturas políticas de momento.

Macri disse que, mal assumiu a presidência argentina, viajou ao Brasil  para manifestar sua vontade de “trabalhar em conjunto” com o maior parceiro comercial argentino – mesmo tendo menos “afinidades políticas” com a então presidente Dilma Rousseff, que apoiou “de forma explícita” Daniel Scioli, candidato da ex-presidente Cristina Kirchner e seu principal rival nas eleições argentinas.

O presidente argentino disse que não considera o impeachment de Dilma um golpe – apesar de saber que tanto no Brasil, como no exterior, existirem interpretações divergentes.

Segundo ele, todo os passos constitucionais foram cumpridos, pelos poderes Judicial e Legislativo.

Crise

Temer e Macri vão se encontrar em um momento em que os dois países – principais sócios do Mercosul – atravessam uma crise econômica.

Numa coletiva nesta quarta-feira, Macri anunciou que “um em cada três argentinos vive abaixo da linha de pobreza”, segundo pesquisa do órgão governamental Indec (Instituto Nacional de Estadísticas e Censo da Argentina) – o equivalente ao IBGE brasileiro.

Durante os dois mandatos da ex-presidente Cristina Kirchner (2007-2015), o Indec sofreu uma intervenção, que reduziu o índice inflacionário.

Oficialmente o custo de vida subia cerca de 10% ao ano, enquanto que as consultoras privadas anunciavam um aumento três vezes maior – equivalente ao aumento salarial acordado entre o governo e os poderosos sindicatos argentinos

Ao assumir em dezembro, Macri prometeu reestruturar o Indec, para tornar suas estatísticas mais transparentes. Ao mesmo tempo, ele se comprometeu a reduzir a pobreza a zero.

As primeiras estatísticas de seu governo mostram que 32% dos argentinos vivem na pobreza e 6,3% na indigência.

Apesar de ter acabado com controles cambiais e reduzido impostos para incentivar o crescimento da economia, o Produto Interno Bruto (PIB) argentino encolheu 5,9% em julho – em comparação com o mesmo mês no ano anterior. Foi a maior retração em 14 anos.

Macri reconheceu que as estatísticas mostram uma realidade “dolorosa”, difícil de aceitar. Mas disse que, pelo menos agora, é possível ter uma verdadeira dimensão do problema que o país enfrenta – o que facilitaria encontrar soluções.

A economia argentina depende em grande parte do desempenho do Brasil, seu principal sócio comercial.

Em 2011, no auge do crescimento econômico dos dois países, o intercambio bilateral foi US$ 39 bilhões. Hoje gira em torno de US$ 26 bilhões.

COMPARTILHAR

DEIXE UM COMENTÁRIO:

Como brasileiros driblam a alta dos preços dos alimentos

Inflação mudou os itens nos carrinhos de supermercado e chegou a afetar a popularidade de Lula. Famílias de diferentes bairros de São Paulo contam sobre sua forma de lidar com a situação. "Driblar os preços." É …

Como Alzheimer deixou ator Gene Hackman sozinho em seus últimos dias: 'Era como se vivesse em um filme que se repetia'

O ator Gene Hackman estava sozinho em sua casa, na cidade de Santa Fé, Novo México, nos EUA, quando faleceu. A estrela de Hollywood, com duas estatuetas do Oscar, não fez uma única ligação e não …

Fenômeno misterioso no centro de galáxia pode revelar nova matéria escura

Pesquisadores do King's College London apontaram, em um novo estudo, que um fenômeno misterioso no centro da nossa galáxia pode ser o resultado de um tipo diferente de matéria escura. A matéria escura é um dos …

ONU caminha para 80 anos focando em reformas e modernização

O líder das Nações Unidas, António Guterres, anunciou o lançamento da iniciativa ONU 80 que quer atualizar a organização para o século 21. Na manhã desta quarta-feira, ele falou a jornalistas na sede da ONU que …

Premiê português cai após denúncia de conflito de interesses

Luís Montenegro perdeu voto de confiança no Parlamento, abrindo caminho para novas eleições. Denúncia envolve pagamentos de uma operadora de cassinos a empresa de consultoria fundada por político. O primeiro-ministro de Portugal, Luís Montenegro, e sua …

Como a poluição do ar em casa afeta a saúde e piora doenças respiratórias

Um levantamento feito em 2024 pela associação Santé Respiratoire France, a pedido da empresa francesa Murprotec, uma das maiores do setor, mostrou que a poluição em ambientes fechados é até nove vezes maior do …

1ª mulher presidente no STM: “Se chegarem denúncias sobre o 8 de janeiro, vamos julgá-las”

Em entrevista à Agência Pública, Maria Elizabeth Rocha, fala de golpe, Justiça Militar e extremismo nas Forças Armadas. O caminho da ministra do Superior Tribunal Militar (STM) Maria Elizabeth Rocha até a presidência da Corte, no …

Fim do Skype: veja 7 apps para fazer chamadas de vídeo

A Microsoft anunciou que o Skype será desativado em 5 de maio de 2025, depois de mais de 20 anos de serviço. Depois do encerramento da plataforma, os usuários poderão migrar para o Microsoft Teams …

O que aconteceu nos países que não fizeram lockdown na pandemia de covid

Em março de 2020, bilhões de pessoas olhavam pelas janelas para um mundo que não reconheciam mais. De repente, confinadas em suas casas, suas vidas haviam se reduzido abruptamente a quatro paredes e telas de …

Iniciativa oferece 3,1 mil bolsas para mulheres em programação e dados

Confederações de bancários e Febraban anunciaram vagas em três cursos. A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e as confederações de bancários – como a Contraf e o Contec – anunciaram nesta terça-feira (11) a oferta …