O enigma do maior vulcão ativo da Europa, escondido sob as águas

Ninara31 / Flickr

Vulcão Nyiragongo

Quando pensamos nos vulcões da Itália, podemos supor que o Etna, na Sicília, e o Vesúvio, que destruiu Pompeia, representam o maior perigo para a população e os turistas da península e suas ilhas.

Mas eles são acompanhados de perto por outra ameaça: o Marsili, localizado cerca de 175 km ao sul de Nápoles.

Com uma altura de 3 mil metros e uma base de 70 km de comprimento por 30 km de largura, o Marsili é um verdadeiro gigante. É o maior vulcão ativo de toda a Europa.

Não se pode avistá-lo, contudo, já que seu cume fica 500 metros debaixo d’água, no mar Tirreno.

Os cientistas sabem da existência de Marsili há um século, mas somente na última década começaram a investigar os perigos que ele pode representar — e as descobertas são preocupantes.

De acordo com alguns modelos recentes, a atividade do vulcão poderia potencialmente desencadear um enorme tsunami, com uma onda de 30 metros de altura atingindo as costas da Calábria e da Sicília.

Pior ainda, não haveria praticamente nenhum alerta de que o desastre é iminente — um fato que está levando alguns cientistas a fazerem apelos por novas tecnologias para monitorar os movimentos do Mediterrâneo.

Uma ameaça antiga

Em termos de tamanho, o Marsili não consegue competir com Tamu Massif, abaixo do noroeste do Oceano Pacífico, que tem cerca de 4.460 metros de altura e pode abrigar um complexo de vários vulcões separados.

O Tamu Massif está extinto, no entanto, enquanto o Marsili segue ativo. Ele se encontra próximo da divisa das placas tectônicas da Eurásia e da África — cujo movimento resulta em intensa atividade geológica.

É apenas um dos muitos vulcões em um arco ao longo da costa norte da Sicília e da costa oeste do sul da Itália.

Alguns deles formaram massas de terra, as ilhas Eólias — Stromboli, Lipari, Salina, Filicudi, Alicudi, Panarea e Vulcano, que recebeu este nome por causa do deus romano do fogo, que deu origem à denominação de todas essas fissuras na crosta terrestre.

E para cada uma dessas ilhas visíveis, dez vulcões se escondem sob as águas do mar.

Segundo Guido Ventura, vulcanologista do Instituto Nacional de Geofísica e Vulcanologia da Itália, Marsili nasceu há cerca de um milhão de anos.

Ao longo dos milênios, chegou a acumular 80 cones vulcânicos, abrangendo desde o norte-nordeste até o sul-sudoeste, junto a várias fissuras e fraturas que poderiam liberar lava.

Devido à sua profundidade sob as águas, esta potencial bomba-relógio à espreita no fundo do oceano do sul da Itália foi descoberta apenas 100 anos atrás.

“Só no início do século 20 que as pessoas começaram a mapear as bacias marítimas”, explica Ventura.

Isso foi motivado, em parte, pelo uso cada vez maior de submarinos por militares e pelos novos sistemas de comunicação internacional, que exigiam a instalação de cabos telegráficos no fundo do mar.

Como resultado desses esforços, os cartógrafos finalmente identificaram o monte submarino na década de 1920.

E deram seu nome em homenagem ao polímata Luigi Ferdinando Marsili (1658-1730), que, entre muitas outras realizações, escreveu o primeiro tratado sobre hidrografia.

Se demoramos a ter conhecimento da existência da Marsili, a pesquisa científica sobre sua atividade é ainda mais recente — estudos detalhados apareceram apenas nos anos 2000.

E, de acordo com suas descobertas, a última erupção do vulcão ocorreu há alguns milhares de anos.

Hoje, sua atividade se limita a ruídos suaves, com emissões gasosas e tremores de baixa energia, diz Ventura.

É claro que isso não impede um retorno mais dramático à vida no futuro; Marsili pode simplesmente estar adormecido.

Se entrasse em erupção novamente, a lava e as cinzas produzidas pela explosão seriam absorvidas pelos 500 m de água acima do monte submarino; há pouco risco de que o “arroto” ardente chegue à terra ou prejudique as populações locais.

“O perigo não é a erupção, mas os possíveis deslizamentos de terra subaquáticos”, diz Ventura.

Se os movimentos sísmicos prévios, ou a própria explosão, levassem ao desabamento de um de seus flancos, isso deslocaria um volume tão grande de água que provocaria um tsunami.

A devastação de Nápoles

Agora sabemos que deslizamentos subaquáticos do arco vulcânico eólico podem ter contribuído para tragédias passadas.

Em 1343, por exemplo, o poeta Petrarca descreveu uma terrível tempestade marítima que devastou a Baía de Nápoles, causando centenas de mortes.

Um estudo recente de Sara Levi, da Universidade Estadual de Nova York, nos EUA, e seus colegas sugere que isso pode ter sido o resultado de um tsunami, originado em Stromboli.

Analisando evidências arqueológicas do vulcão, a equipe encontrou evidências de um deslizamento de terra antigo, resultando em um tsunami que atingiu a costa da Calábria.

Uma erupção mais recente em Stromboli, em 2002, deu origem a dois tsunamis. As ondas afetaram apenas a ilha em si, no entanto, sem chegar ao continente — e ninguém morreu.

Infelizmente, ainda não podemos calcular a ameaça precisa de Marsili.

“Simplesmente não temos dados suficientes”, diz Glauco Gallotti, físico da Universidade de Bolonha, na Itália.

Mas, segundo ele, há boas razões para pensar que pode representar uma ameaça.

Por um lado, a atividade hidrotermal contínua pode ter enfraquecido as rochas do vulcão. Além disso, registros de microterremotos mostram que a lava ainda está turbulenta na câmara magmática, diz ele.

Por ambas as razões, devemos levar esta possibilidade a sério com a realização de mais pesquisas.

Em artigo publicado no início deste ano, a equipe de Gallotti considerou cinco cenários distintos, cada um analisando os efeitos de diferentes deslizamentos de terra possíveis.

Nos primeiros casos, o deslocamento da água foi mínimo — levando a uma onda de apenas alguns centímetros de altura.

Um desabamento no flanco noroeste, no entanto, provou ser mais sério — levando uma onda de 3-4 m de altura a atingir o sul da Campânia, e uma onda de 2-3 m a atingir a Calábria e a Sicília dentro de 30 minutos após o evento.

É importante levar isso a sério, uma vez que uma “cicatriz” no monte submarino de Marsili sugere que um deslizamento de terra semelhante pode ter ocorrido no passado.

“E pode ter gerado ondas entre 1m e 3m de altura”, diz Gallotti.

O pior cenário envolveu o colapso do cume centro-sul e do flanco oriental.

De acordo com os cálculos de Gallotti, isso resultaria em uma onda de 20 m de altura atingindo a Sicília e a Calábria em 20 minutos.

Mais pesquisas são necessárias para avaliar a probabilidade de que isso aconteça, ele destaca.

“Mas [ainda] não podemos descartar a possibilidade.”

Se acontecer uma erupção, o custo humano pode depender da época do ano e se o tsunami chegar ou não na alta temporada do turismo.

“O sul da Itália é bastante povoado no verão”, observa Gallotti.

Dada a elevação da costa da Itália, as pessoas devem estar seguras se estiverem a cerca de um quilômetro no interior, ele estima.

Irmãos sísmicos

Ventura concorda que esses riscos devem ser analisados.

“Está claro que Marsili precisa ser monitorado para possíveis instabilidades em seus flancos.”

Como os eventos em Stromboli mostraram, Marsili pode ser o maior vulcão da Europa, mas seus irmãos também podem representar ameaças significativas.

“Vale lembrar que no mar Tirreno, como no estreito da Sicília, existem pelo menos 70 vulcões submarinos, cuja história, em alguns casos, é totalmente desconhecida”, afirma Ventura.

De particular preocupação é o vulcão Palinuro, localizado a 65 km da costa de Cilento.

Segundo Gallotti, estudos recentes mostram que o complexo vulcânico possui uma camada de 150 m de material solto que pode ser deslocado com movimentos sísmicos.

Idealmente, pesquisas futuras fornecerão mais detalhes dessa estrutura e suas chances de desmoronar.

Se o risco for significativo, o governo italiano pode precisar tomar medidas para prevenir o desastre em potencial.

No momento, não há um bom sistema de monitoramento para alertar os italianos sobre um tsunami iminente.

Mas não precisa ser muito difícil de construir, diz Gallotti. Ele ressalta que uma rede de boias, equipadas com sensores de movimento, deve ser capaz de detectar diferenças características nos movimentos do mar que sinalizam o surgimento de um tsunami.

O sistema poderia enviar um alerta automático por SMS para as pessoas nas áreas afetadas — permitindo a elas chegar a lugares mais altos antes do tsunami atingir a região.

Ventura sugere que também pode ser possível monitorar os movimentos do próprio vulcão.

“Nos últimos 40 anos, a tecnologia para monitorar vulcões ativos avançou muito”, diz ele.

Além de um sistema de alerta, Gallotti também gostaria de ver uma maior conscientização sobre o perigo potencial — por parte da população e dos formuladores de políticas públicas.

Ele cita um artigo de Teresita Gravina, da Universidade Guglielmo Marconi, na Itália, Nicola Mari, da Universidade de Glasgow, na Escócia, e seus colegas, que avaliaram recentemente a percepção de risco da população no sul da Itália.

Em geral, as pessoas estavam cientes de que tsunamis poderiam ocorrer na área, mas seu conhecimento era confuso.

Quando questionadas sobre os eventos mais recentes, por exemplo, apenas 3,3% das pessoas que responderam mencionaram o tsunami de 2002 em Stromboli.

A maioria se considerava mal informada sobre os eventos, com conhecimento limitado das causas potenciais do tsunami ou das melhores formas de agir, caso acontecesse outro.

“Isso é muito sério”, afirmaram Gravina e Mari à BBC Future por e-mail.

“Provavelmente se deve ao fato de que na Itália há pouca comunicação sobre esses assuntos. Saber como um fenômeno sísmico ou um tsunami se forma é muito importante, porque você pode avaliar por completo os cenários diferentes e os diferentes comportamentos que seriam necessários para evitar o perigo.”

Qualquer tentativa de desenvolver um sistema de alerta eficaz precisaria levar em consideração os comportamentos das diferentes comunidades, eles dizem. (Já vimos isso com a covid-19 — duas populações podem reagir exatamente à mesma informação de maneiras muito diferentes).

Houve alguns avanços positivos. Um projeto recente em Salerno, organizado pelo Departamento de Defesa Civil da Itália, tentou simular um cenário de emergência provocado por um tsunami.

“Isso pode ter aumentado a consciência deles sobre o risco”, afirmam Gravina e Mari.

Mas, para a maioria das pessoas, o perigo de um deslizamento de terra subaquático, causado por um vulcão submarino, ainda é pouco compreendido — o que significa que é necessário muito mais trabalho para educar as pessoas sobre essa possibilidade.

O risco de um tsunami pode parecer remoto — mas se acontecer, um pouco de conhecimento pode ajudar a salvar milhares de vidas.

// BBC

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