Georg Elser, o lobo solitário que quase matou Hitler

Em 8 de novembro de 1939, um carpinteiro alemão por pouco não mudou o rumo da história. Mas ditador nazista escapou do atentado preparado por ele em Munique. Passaram-se décadas até Elser ser reconhecido.

Consta que Adolf Hitler teria dito que teve uma “sorte do diabo” em seus anos de poder na Alemanha nazista. A presença de espíritos malignos durante seu domínio de terror é motivo de especulação.

O que é indiscutível é que ele conseguiu sobreviver a várias tentativas de assassinato, enquanto inúmeros conluios eram descobertos antes que os atentados pudessem ser realizados. Na maioria dos casos, uma combinação de fatalidade, sorte, falhas técnicas e inépcia por parte dos possíveis assassinos ajudaram o ditador.

Indiscutivelmente, a mais conhecida das tentativas fracassadas de matar Hitler foi realizada por um grupo liderado pelo oficial do Exército alemão Claus Schenk von Stauffenberg em 20 de julho de 1944.

Enquanto o nome dele e dos demais conspiradores aparecem com destaque nos livros de história e em eventos memoriais, a figura de Georg Elser fica, frequentemente, fora do radar.

Cinco anos antes do atentado elaborado por Stauffenberg, Elser tentara matar Hitler com uma bomba caseira instalada na cervejaria Bürgerbräukeller em Munique, mesmo local do golpe fracassado contra Hitler em 9 de novembro de 1923. Todos os anos, na véspera do aniversário do golpe, o ditador discursava na Bürgerbräukeller.

Os melhores planos

O atentado de 8 de novembro de 1939 deveria ser o último. O planejamento por parte de Elser havia sido meticuloso – o momento da explosão, a localização dos explosivos, até a rota de fuga. A única coisa que ele não havia previsto era que Hitler terminasse seu discurso mais cedo que o esperado e deixasse o local antes de o artefato detonar.

A bomba de Elser explodiu pouco menos de 15 minutos depois, matando oito pessoas, mas não o alvo pretendido. Elser foi posteriormente preso por uma patrulha enquanto tentava atravessar a fronteira para a Suíça. Ele foi preso, torturado e executado em abril de 1945, poucos dias antes do final da Segunda Guerra Mundial.

Então, por que seus atos e sua coragem não receberam amplo reconhecimento? “Por um lado, é o resultado da difamação por parte dos nazistas, que permaneceu por muitas décadas após a guerra. Por outro lado, é devido à imagem de Elser, que foi criada e propagada no final da década de 1930”, diz o professor Johannes Tuchel, diretor do Memorial da Resistência Alemã em Berlim.

“Os nazistas apresentaram Elser como uma ferramenta da inteligência britânica. Vozes críticas da oposição disseram que não, que esse ataque foi perpetrado pelos próprios nazistas para demonstrar novamente a infalibilidade de Hitler”, explica Tuchel.

Um homem de visão

Essas duas narrativas – ceticismo e propaganda – prevaleceram nos anos 1960 na sociedade alemã-ocidental do pós-guerra que tinha dificuldades em reconhecer e aceitar as ações de um lobo solitário, especialmente de alguém com tendências comunistas.

Elser detestava o nazismo e tudo o que ele representava: a deterioração da classe trabalhadora, as restrições à liberdade pessoal, à liberdade de crença e educação. O verdadeiro abrir de olhos veio quando ele passou a trabalhar numa fábrica de armamentos em 1939, concluindo que Hitler significava guerra e tinha que ser contido.

“Tem-se um carpinteiro da região da Suábia [sudoeste da Alemanha] que é um excelente artesão. Em 1938, ele vê o que muitos alemães poderiam ter visto e recorre aos meios mais extremos, ou seja, a uma tentativa de assassinato – aliás, não apenas contra Hitler, mas contra toda a liderança nazista, principalmente [Hermann] Göring, [Joseph] Goebbels e [Heinrich] Himmler”, apontou Tuchel.

Segundo Tuchel, isso foi crucial para o pensamento de Elser. “Ele ponderou que isso abriria o caminho para que outros, não interessados em expansão territorial, chegassem ao poder. Em outras palavras, isso significa que outras pessoas já poderiam ter visto os sinais de alerta em 1938 e agido em conformidade com tal.”

Não necessariamente realizando tentativas de assassinato, acrescentou o diretor do Memorial da Resistência Alemã, mas mostrando desobediência civil, organizando protestos ou com atos de sabotagem. “Elser apontou, de forma impressionante, as opções e possibilidades, algo que foi difícil, até vergonhoso, para a sociedade do pós-guerra entender e digerir.”

Reconhecimento para Elser

Embora o caminho tenha sido longo e muitas vezes árduo, Tuchel diz estar satisfeito com o progresso feito desde meados dos anos 1990 para reconhecer e apreciar devidamente as motivações e atos de Elser.

Nesta semana, o presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier, inaugurou um novo memorial para Georg Elser em Hermaringen, cidade onde o carpinteiro nasceu no sul da Alemanha.

No entanto, Elser ainda é visto como uma pessoa não conformista e obstinada, como alguém que convida à discussão sobre seus atos e sua personalidade. Mas, como diz Tuchel, é necessário que haja tais discussões. “Precisamos ser capazes de fazer perguntas francas sobre seus motivos, objetivos e atos. E isso certamente é algo que hoje podemos realizar muito melhor do que há 20 ou 30 anos.”

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