Um ano após tragédia em Moria, problemas persistem

Em 9 de setembro de 2020, um incêndio destruiu o maior campo de refugiados da Europa, na ilha grega de Lesbos, deixando 12 mil desabrigados. Até hoje governo não cumpriu promessas, e muitos seguem em campo provisório.

O incêndio de 9 de setembro de 2020 não foi o primeiro no maior campo de refugiados da Europa, mas foi o mais devastador. As chamas destruíram completamente o campo de Moria, na ilha grega de Lesbos, deixando mais de 12 mil desabrigados pouco antes do inverno no hemisfério norte.

O fogo foi iniciado por alguns dos próprios residentes, possivelmente por frustração e desespero. Eles não queriam mais ficar no “Inferno”, como o acampamento era chamado pelos moradores. Autoridades gregas não foram clementes: quatro jovens migrantes foram detidos e condenados a dez anos de prisão por incêndio criminoso.

Ao mesmo tempo, o governo conservador do primeiro-ministro Kyriakos Mitsotakis prometeu um recomeço na política de refugiados grega: campos superlotados como Moria, a “Vergonha da Europa”, seriam fechados, e novas áreas já estariam sendo planejadas. Primeiramente foi montado um campo de emergência na praia de Mavrovouni, não muito longe da capital da ilha, Mitileni. Os refugiados de Moria deveriam passar ali os próximos meses, de forma temporária.

Mas já dizia um provérbio grego: nada dura mais do que uma solução temporária. Até hoje, os migrantes permanecem no acampamento de Mavrovouni. O alojamento vizinho de Kara Tepe, que poderia proporcionar melhores condições de vida para pelo menos alguns deles, foi fechado em abril de 2021 por ordem do governo em Atenas.

Para acolhê-los, um novo campo fechado com capacidade para milhares de pessoas será construído em um futuro próximo na remota região montanhosa de Plati. Atenas recebeu milhões de euros de financiamento da União Europeia (UE) para a construção do moderno campo de refugiados.

Originalmente se anunciou que o campo em Plati estaria pronto no outono europeu (entre setembro e dezembro) de 2021. Mas esse cronograma não será cumprido.

Angeliki Dimitriadis, pesquisadora de migração no think tank de Atenas Eliamep, disse à DW que o atraso se deveu à insatisfação pública, mas também a obstáculos burocráticos. “As autorizações de redes de luz e água, transporte de materiais de construção ou licitações legalmente estipuladas demoram muito, não só em Lesbos”, explica a cientista política.

“Pessoas ainda vivem em barracas”

Segundo o Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur), cerca de 3.500 requerentes de refúgio vivem atualmente na ilha de Lesbos. A maioria vem do Afeganistão. Antes do incêndio em Moria, eram mais de 17 mil pessoas.

Muita coisa aconteceu desde então: milhares de migrantes foram realocados para a Grécia continental − ou porque seu pedido de refúgio foi aprovado ou porque foram reconhecidos como “pessoas vulneráveis” com necessidades especiais de proteção.

Os políticos locais em Lesbos exerceram muita pressão para evitar que os recém-chegados permanecessem na ilha por tanto tempo. Além disso, menores desacompanhados e outras pessoas vulneráveis conseguiram refúgio em outros países europeus, incluindo a Alemanha, como parte de um programa de reassentamento financiado pela UE.

“O simples fato de não haver tantas pessoas amontoadas em um espaço confinado melhorou as condições de vida em Lesbos”, disse a pesquisadora Dimitriadis. Mas os problemas básicos continuaram: “As pessoas ainda vivem em barracas, à beira-mar. Quando chove, o acampamento improvisado fica inundado, e no verão o calor é insuportável.”

Proteção de fronteiras

A porta-voz do programa de refugiados da ONU, Stella Nanou, defendeu a necessidade de melhorias nos campos ditos provisórios, antes da chegada do inverno na Europa, no fim do ano.

“Uma vez que o número de refugiados em Lesbos já está caindo significativamente, agora seria hora de avançar com as obras de construção e reparo no campo de Mavrovouni, para que as condições de moradia dos migrantes continuem melhorando até o início do inverno europeu”, diz Nanou à DW.

No momento, porém, a política da Grécia tem outras prioridades. “A proteção eficaz das fronteiras” do país é mais importante.

No início de julho, o ministro grego da Imigração, Notis Mitarakis, declarou no Parlamento que o número de recém-chegados a Lesbos e a outras ilhas do leste do Mar Egeu havia caído 96% nos últimos 12 meses.

“Este governo recuperou o controle da crise dos refugiados”, afirmou o político conservador, ele próprio natural da ilha de Chios, no leste do Egeu. A afirmação foi uma alfinetada contra o partido de esquerda Syriza, que governou até 2019, e que os conservadores acusam de terem mantido uma política ingênua de fronteiras abertas.

Mecanismo de controle

Mas como recuperar o controle sobre a crise dos refugiados? Já em junho de 2017 − muito antes da mudança de governo em Atenas − o “Jornal dos Editores”, de orientação esquerdista, relatou as rejeições ilegais de requerentes de refúgio pelas autoridades gregas nas fronteiras nacionais.

Desde então, tem havido cada vez mais informações e relatórios relevantes nesse sentido. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados considera algumas dessas evidências confiáveis ​​e recomenda que o governo grego estabeleça um mecanismo de controle independente.

Atenas nega todas as acusações. Agora, a União Europeia ameaça bloquear fundos para a guarda costeira grega. A cientista política Dimitriadis acredita que a pressão financeira seja, de fato, o único instrumento de que a Comissão Europeia dispõe.

Mas ela também acha que, “sem o apoio da Europa, a política de mão forte grega provavelmente não seria possível. No fundo, os outros países europeus provavelmente estão felizes que os gregos façam este trabalho ingrato na fronteira externa”.

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