(dr) Shannon Mcpherron/ MPI EVA Leipzig

O paleoantropólogo Jean-Jacques Hublin, do Instituto Max Planck, mostra um achado no sítio arqueológico de Jebel Irhoud, Marrocos
Um grupo de cientistas descobriu no Marrocos aqueles que alegam ser os fósseis mais antigos do Homo sapiens.
Um estudo publicado nesta quarta-feira pela revista Nature aponta que os fósseis mais antigos do Homo sapiens, que foram encontrados no Marrocos, teriam cerca de 300 mil anos, 100 mil a mais do que os restos mortais detentores da marca, encontrados em Omo Kibish, na Etiópia, em 1967.
A descoberta, feita em um sítio arqueológico chamado Jebel Irhoud, a 150 quilômetros a oeste de Marrakech, indica uma mudança no que se sabia sobre a origem da espécie humana, mas segundo a revista confirma que o Homo sapiens esteve presente em todo o continente africano.
O trabalho científico foi coordenado pelo paleoantropólogo francês Jean-Jacques Hublin, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva de Leipzig, na Alemanha.
Até o momento, nenhuma outra fonte fez alusão a esta descoberta no Marrocos, um país rico em fósseis que são alvos frequente de pilhagem e exploração incontrolada.
Um resto de crânio encontrado em Jebel Irhoud apresenta “um mosaico de características, incluindo morfologia facial, mandibular e dental que alinha esse material com restos humanos primitivos ou considerados anatomicamente modernos“.
Jebel Irhoud é uma jazida paleontológica descoberta em 1991 e que revelou importantes descobertas de fósseis humanos, particularmente os restos de um Homo sapiens de oito anos de idade e que datavam de 160 mil anos atrás.
NHM London

Os mais antigos fósseis de Homo Sapiens, encontrados no Marrocos (esq.) têm um crânio mais alongado do que os humanos modernos (dir.)
Muda tudo o que se sabe sobre a origem do Homem
A descoberta tira sustentação à teoria de que o homem moderno evoluiu há 200 mil anos a partir de um único “berço de humanidade” no leste da África, e mostra que o Homo sapiens emergiu pelo menos 100 mil anos antes do que se pensava. Segundo o estudo, nossa espécie evoluiu por todo o continente africano, de forma muito mais fragmentada do que se pensava.
A descoberta faria com que “se reescrevam os livros de História” sobre o surgimento do Homem como espécie, diz o professor Jean-Jacques Hublin, antropólgo do Instituto Max Planck de Antropologia Evolucionária (MPI), na Alemanha. “Esse material fóssil representa a raiz da nossa espécie, é o mais antigo Homo sapiens já encontrado na África ou em qualquer outro lugar”, explica Hublin.
“A nossa origem não foi uma coisa que aconteceu rapidamente, em um Jardim do Éden em qualquer lugar específico da África. Nossa evolução foi algo mais gradual e envolveu todo o continente. Se houve um Jardim do Éden, ele foi a África inteira“, diz Hublin.
O material fóssil agora descoberto tem entre 300 mil e 350 mil anos de idade, e o crânio tem uma forma quase idêntica ao dos humanos modernos. As poucas diferenças que se sobressaem são uma testa um pouco mais proeminente e uma cavidade cerebral um pouco menor.
A escavação da equipe de Hublin revelou também que estes povos antigos já usavam ferramentas de pedra e tinham aprendido a produzir e controlar fogo. Ou seja, não apenas se pareciam com o Homo sapiens, como também agiam como tal.
Antes de a nossa espécie ter evoluído, havia muitos tipos diferentes de espécies humanas primitivas, cada uma delas com forças, fraquezas e características físicas próprias. Essas diferentes espécies humanas – assim como outros animais – evoluíram e mudaram sua aparência gradualmente, ao longo de centenas de milhares de anos.
A visão histórica predominante até agora era de que o Homo sapiens tinha evoluído repentinamente de humanos primitivos no leste africano há cerca de 200 mil anos – e teria sido nesse ponto que ganhamos as feições e características físicas que temos hoje.
Segundo essa teoria, só a partir daí é que teríamos começado a nos espalhar pela África e pelo resto do planeta. As descobertas da equipe de Hublin colocam essa versão em causa. “Temos de mudar nossa visão sobre como os primeiros humanos modernos emergiram”, conclui Hublin.
(dr) MPI-EVA Leipzig

Mandíbula inferior de um Homo sapiens encontrado em Jebel Irhoud
Novas interpretações
O professor Chris Stringer, do Museu de História Natural de Londres, também diz que esta descoberta mostra que há múltiplos lugares na África onde o Homo sapiens emergiu. “Precisamos de nos distanciar dessa ideia de que houve um único berço da humanidade”, disse.
Stringer levanta mesmo a possibilidade de que o Homo sapiens tenha existido na mesma época fora da África. “Há fósseis em Israel que têm provavelmente a mesma idade e mostram sinais que poderiam ser descritos como feições proto-Homo sapiens”, salienta.
Stringer diz que não é inconcebível a ideia de que possam ter existido anteriormente na história, talvez até milhões de anos atrás, humanos primitivos com cérebros menores, rostos e dentes maiores, e testas mais fortes – mas que, ainda assim, eram Homo sapiens.
Isso é uma mudança de paradigma radical nos estudos das origens humanas. “Havia a ideia de que o Homo sapiens tinha aparecido subitamente na África em dado momento – e que essa era a origem da nossa espécie”, diz Stringer.
“Mas, aparentemente, isso estava errado“, concluiu o antropólogo.
// EFE