Enquanto o Facebook se preocupa com a Justiça, Google parte para o ataque

Desde que vazou o escândalo da participação do Facebook na revelação de dados de usuários, a companhia de Zuckerberg já perdeu nada mais nada menos do que US$ 50 bilhões em valor de mercado. Isso em apenas dois dias. Mas é como sempre dizem: em toda a situação há um ponto positivo.

Desta vez, no entanto, o ponto positivo fica por conta do principal rival do Facebook, o Google, que já prepara a sua ofensiva à indústria da publicidade visando à lacuna deixada pelo vacilo de Mark Zuckerberg.

Segundo a Oficina da Net, para piorar a situação de Mark, os anunciantes não param de ir embora; um dos últimos foi o Mozilla, que anunciou que não investirá mais na rede.

Quem confirma a investida do Google é Matt Brittin, diretor para assuntos na região da Europa, África e Oriente Médio. Ele disse a um auditório lotado na Advertising Week Europe (Semana de Propaganda da Europa): “Nós os ouvimos”.

E a alfinetada continuou: “Ouvimos quando vocês dizem que querem transparência, querem segurança, querem proteção contra fraude. Nós ouvimos vocês, alto e claro”.

O gigante das buscas – que comanda cerca de um terço da receita anual de publicidade digital em todo o mundo – está tentando tranquilizar os anunciantes que se preocupam com a segurança e transparência de suas marcas em um ambiente digital onde os escândalos estão cada vez mais frequentes.

A ideia de correr e abocanhar estes anunciantes que o Facebook acabou de perder é ainda mais interessante para o Google se lembrarmos que pequenos players dos anúncios digitais, como Amazon e Snapchat, estão incomodando cada vez mais os grandes nomes.

De acordo com anunciantes e agências de publicidade online, o escândalo sobre o uso de dados do Facebook pela Cambridge Analytica na campanha presidencial de Donald Trump só ainda não configura um motivo para corte de gastos com propagandas.

Quanto ao Facebook, especificamente, os mesmos anunciantes afirmaram, antes de a bomba explodir, que planos para aumento de investimento na plataforma já não eram cogitados.

Os motivos são que a rede social não tem inovado em seus modelos de anúncios tanto quanto os seus rivais, além de que seus últimos números de tráfego estão deixando a desejar: o Facebook, que vinha crescendo a passos largos no número de novos usuários nos últimos trimestres, desacelerou mais do que o esperado na última avaliação.

Além disso, os usuários do site gastaram dezenas de milhões de horas a menos em interação com a rede. Não por coincidência, Zuckerberg elegeu como tarefa do ano de 2018 consertar os erros da plataforma e fazer as pessoas voltarem a se interessar pelo Facebook.

“Esse modelo não é exatamente atraente para uma empresa que está entre as 500 maiores do mundo ou as 100 maiores e que gasta muito dinheiro com você”, disse Michael Bertini, da empresa de marketing digital iQuanti sobre investir no Facebook.

Recentemente, Bertini viu clientes retirarem grande parte de seus gastos com a rede social e os colocarem em outras plataformas. “Eles pensam: ‘Bem, eu poderia gastar esse dinheiro com campanhas de remarketing, gastar mais com o Google, gastar esse dinheiro com o YouTube‘”, disse o empresário.

O Google quer mudar

E se o problema do Facebook é a estagnação, o Google é que não vai ser de bobo de fazer o mesmo. Por isso, vem introduzindo novas formas de anunciar. Uma delas se trata de uma aplicação lançada esta semana onde os varejistas listam seus produtos no Google Shopping, sem deixar de listá-los em outras plataformas, como a Amazon, por exemplo.

Como o Google tem o domínio das buscas, poderá direcionar uma pesquisa sobre “roteador” para seus parceiros de marketplace em detrimento de exibir anúncios da companhia de Jeff Bezos nas primeiras posições.

Essa é apenas a ação mais recente. Outras ferramentas incluem uma solução que define anúncios baseada em machine learning, lançada no mês passado.

Soma-se a isso o filtro de anúncios para Google Chrome, lançado no início deste ano, que bloqueia propagandas que não atendem aos padrões de qualidade definidos e os mais de 3,2 bilhões de anúncios de má qualidade que foram removidos somente em 2017.

Google quer mais transparência

O Google anunciou que, para ser mais transparente, foi alvo de elogios tanto na clareza com os usuários sobre os dados que coleta e utiliza, mas também no combate a anúncios ruins e eliminação de conteúdo ofensivo maximizado por revisão humana aliada à machine learning.

Não custa lembrar que há 1 ano, no mesmo evento, era o Google que pedia desculpas às marcas depois que seus anúncios exibiram conteúdo extremista ou ofensivo.

Isso sem contar os vídeos do YouTube Kids estavam exibindo conteúdo impróprio para crianças. Mais recentemente, até mesmo vídeos de conspiração destinados aos sobreviventes de mais um tiroteio em escolas norte-americanas estava sendo veiculado na página de vídeos em alta do YouTube.

De acordo com a Oficina, o Google sabe que errou e que precisa agir rápido para ocupar o espaço deixado pelo Facebook; mas, claro, sem se sujeitar às perdas bilionárias do Facebook.

Por isso, o Google tem contratado mais moderadores humanos para resolver problemas com YouTube, enquanto softwares cada vez mais apurados e inteligentes sinalizam aqueles que parecem impróprios para anunciantes.

Sem medir esforços, a empresa também prometeu que pessoas verificariam todos os vídeos do programa Google Preferred, que inclui os melhores canais do YouTube, que são mais seguros para anunciantes. O processo já foi concluído no Reino Unido e tem como objetivo ser concluído em outros países nas próximas duas semanas.

Na terça-feira (20), o Google anunciou novos esforços direcionados aos publicadores de conteúdo buscando agradar aqueles que se sentiram rejeitados pelas recentes mudanças no algoritmo do Facebook.

Para atender a essa demanda, foi lançado o Subscribe with Google, onde as pessoas podem usar o serviço para se inscrever em notícias de determinado assunto diretamente pelo Google (o Facebook também testa recursos de assinatura).

Segundo o Bloomberg, estes publishers ficariam com algo entre 85% e 90% da receita quando os leitores comprassem assinaturas através do novo serviço, ao contrário dos 70% que ganham atualmente por meio de assinaturas na Google Play Store.

Por falar nisso, a empresa também anunciou que está lutando contra as fake news ao anunciar uma iniciativa de US$ 300 milhões para financiar projetos de “jornalismo de qualidade” nos próximos três anos.

O Facebook ainda tem um público massivo de mais de 2,2 bilhões de usuários mensais ativos, que os profissionais de marketing não podem ignorar na hora de pensar em campanhas. Mas a distração em relação aos problemas causados pela privacidade dos dados poderia impedir a empresa de inovar e aumentar a audiência, empurrando os anunciantes digitais para outros braços, como o próprio Google, a Amazon ou o Snapchat.

É o que dizem: enquanto uns choram, outros vendem os lenços.

Ciberia // Oficina da Net

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