Museu Nacional busca ajuda na Europa

Tânia Rêgo / ABr

Pouco mais de oito meses após um incêndio destruir o Museu Nacional no Rio de Janeiro, os trabalhos para a reconstrução do edifício histórico e acervo seguem no ritmo esperado, no entanto, estão ameaçados por falta de recursos.

“A doação que recebemos foi essencial, mas agora chegamos ao limite e, se não houver uma injeção forte de verbas, teremos que parar”, afirma o diretor do museu, Alexander Kellner. Segundo o diretor do museu, houve grandes repasses para as obras de reconstrução do prédio e de restauração da fachada, que devem começar já neste ano, mas faltam recursos para o dia a dia.

“É absolutamente desesperador, não tenho dinheiro para comprar luvas, caixas para guardar as peças retiradas dos escombros e computadores. As pessoas que estão trabalhando no local não têm lugar para ficar, e isso precisa ser resolvido. Preciso urgentemente de 1 milhão de reais para comprar dez contêineres para armazenar o material que está sendo resgatado e continua no chão”, ressalta Kellner.

Em busca de ajuda, o diretor do Museu Nacional iniciou nesta quarta-feira (22/05) em Berlim uma viagem de duas semanas pela Alemanha e França. Na agenda, estão reuniões com representantes dos governos alemão e francês, além de encontros com responsáveis por museus e instituições culturais desses dois países.

Além de ajuda financeira, Kellner busca também apoio institucional para a recomposição do acervo, que foi consumido pelas chamas no início de setembro do ano passado, através de doações ou empréstimos de longa duração. O diretor pontuou, porém, que, em contrapartida, o Brasil precisa construir um museu com os melhores padrões de segurança para merecer esse novo acervo.

Em seu primeiro dia em Berlim, Kellner se reuniu com a secretária de Cultura do Ministério do Exterior alemão, Michelle Müntefering, deu entrevistas a uma emissora de rádio local e participou de evento aberto ao público sobre o futuro do Museu Nacional, que ocorreu no Museu de História Natural da cidade.

Falando em alemão a uma plateia lotada, Kellner contou um pouco da história do prédio e do museu que o abrigava. O edifício histórico consumido pelas chamas foi residência da família real, além de ter sido o local escolhido pela princesa Leopoldina, esposa de Dom Pedro 1º, para assinar a declaração de independência do Brasil, em 1822.

No ano passado, a instituição, fundada pelo rei Dom João 6º e inaugurado em 6 de junho de 1818, comemorou seus 200 anos apenas três meses antes da tragédia. “Depois veio o 2 de setembro, cheio de dor, desespero, frustação e um sentimento de desamparo. Essa data ficará para sempre no coração das pessoas, principalmente daqueles que atuam nas áreas da ciência e da cultura”, ressalta Kellner.

O diretor mostrou imagens do museu e do que restou dele após o incêndio. Estima-se que grande parte do acervo do Museu Nacional tenha sido perdido na tragédia. O local abrigava cerca de 20 milhões de peças e documentos e possuía algumas das coleções mais importantes do continente em diversas áreas.

Entre os objetos que se perderam estavam artefatos pré-históricos latino-americanos, ossos de dinossauros brasileiros e objetos arqueológicos do Egito. Em dezembro, o museu divulgou que foram achados mais de 1.500 itens durante os trabalhos de busca nos escombros do prédio, inclusive partes do crânio e do fêmur de Luzia, o mais antigo fóssil humano encontrado no país.

Ao público presente, Kellner explicou ainda o funcionamento da instituição e sua importância para a pesquisa e pediu ajuda da comunidade internacional por meio de doações financeiras ou do envio de cartas de intenção de empréstimo ou doações de peças ao governo federal.

Ele agradeceu ainda os recursos já doados e prometidos pela Alemanha. Em dezembro, o governo alemão repassou cerca de 800 mil reais para o museu para a compra de materiais essenciais para a recuperação do acervo. O dinheiro foi gasto, entre outros, com computadores e um drone para orientar os trabalhos nos escombros.

Questionado pela DW Brasil sobre o apoio do governo de Jair Bolsonaro à reconstrução do Museu Nacional, Kellner afirmou que, apesar dos pedidos, os representantes da instituição não foram recebidos nem pelo antigo ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, demitido em abril, nem por seu sucessor, Abraham Weintraub.

“Sem o MEC não tem museu. Queremos mostrar nossos projetos e conversar sobre o que precisa ser feito. Há coisas fáceis que não precisam de dinheiro, necessitam apenas de uma assinatura que pode resolver muitos problemas”, afirmou. O diretor contou ainda que tem conversado com outros ministérios para explicar a situação do processo de restauração e a importância da instituição.

“O Museu Nacional não pertence a um grupo de pessoas, a partidos políticos. O museu é da sociedade brasileira e é fundamental que o governo tenha consciência disso. Aproveito para renovar meu convite para o ministro da Educação visitar o museu”, acrescentou.

Além de Kellner, o diretor do Museu de História Natural de Berlim, Johannes Vogel, também fez uma breve palestra, na qual lembrou a destruição daquele local durante a Segunda Guerra Mundial e sua recuperação.

O museu berlinense enfrenta problemas semelhantes ao do Rio de Janeiro. Apesar de ser um dos mais visitados da capital alemã, a instituição não tinha verba suficiente para fazer reformas necessárias. Cerca de 70% do seu acervo e partes do prédio, que ficaram danificadas durante a Segunda Guerra Mundial e não foram reformadas, não tinham condições de serem abertos ao público.

Após a tragédia no Rio de Janeiro, os governos federal alemão e local anunciaram em novembro do ano passado uma verba extra de 660 milhões de euros para o Museu de História Natural, a partir de 2020. O dinheiro será repassado ao longo de dez anos. Parte desses recursos será investida em reformas e restaurações necessárias, na ampliação do prédio e na modernização da exposição e laboratórios.

Vogel encerrou o evento prometendo ajuda ao Museu Nacional e com uma forte crítica às reações após o incêndio da catedral de Notre Dame, em Paris. “Num curto período de tempo, duas coisas queimaram, conhecimento e fé, e para onde foi desembolsado muito dinheiro? Não foi para o conhecimento. Temos os valores certos?”, questionou.

Notre Dame pegou fogo em meados de abril e, dois dias após a tragédia, recebeu mais de 3 bilhões de reais em doações. Já para o Museu Nacional, meses depois o desastre, foram doados 1,1 milhão de reais.

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